Crítica: Glass – 2019

Quando M. Night Shyamalan apresentou ao mundo Fragmentado, era difícil prever que o aparentemente pequeno thriller era parte de algo muito maior. Apenas na última cena do filme ficámos a saber que o que tínhamos visto existia no universo de O Protegido, a desconstrução dos super-heróis que Shayalaman realizou em 2000. Afinal, Fragmentado era uma origin story para um super-vilão. Com isto, nascia a improvável Eastrail 177 Trilogy, que chega agora ao fim com Glass.

Como é bem sabido, a carreira de Shayalaman é atípica: o homem que começou por ser apontado como o “novo Spielberg” após O Sexto Sentido acabou por perder fôlego numa série de desastres de grande orçamento, que pareciam pôr fim a uma carreira promissora. O modelo da Blumhouse acabou por ser a sua salvação, permitindo-lhe recuperar elogios da crítica e lucros na bilheteira com A Visita e com Fragmentado.

Em 2019, chega o último capítulo da trilogia praticamente acidental de Shayamalan, e o resultado é… interessante. Se O Protegido era a origin story de um super-herói e Fragmentado a de um vilão, Glass é o confronto final, o clímax da luta entre dois seres que vivem entre nós como humanos, mas são mais do que isso. Por isso, o primeiro ato preocupa-se em colocá-los no mesmo lugar.

Kevin (James McAvoy) e as suas 23 personalidades, conhecido como “a horde” continua à solta, com “a besta”, a personalidade que se transforma fisicamente numa verdadeira besta, a continuar a atormentar os “puros” que nunca sofreram. David Dunn (Bruce Willis) possui agora uma agência de video-vigilância, e passa o seu tempo livre a procurar criminosos para poder executar a sua justiça particular. O alvo de Dunn nos últimos tempos tem sido precisamente “a horde”.

Após um confronto, ambos são detidos numa instituição mental, em que também está encarcerado Elijah (Samuel L. Jackson), o Mr. Glass que no final do primeiro filme descobrimos ser a mente por detrás de uma série de atentados terroristas. Estas três personagens estão ali para serem “curados” pela Dra. Ellie Staple (Sarah Paulson), uma psiquiatra que considera que nenhum deles tem super-poderes, sendo pessoas normais que apenas colocaram aquela ideia na cabeça.

A grande maioria do filme passa-se nas instalações hospitalares, com muito pouca interação entre os três protagonistas entre si. O foco de Shayamalan é, tal como já o fora em O Protegido, a desconstrução dos conceitos de heróis/ vilão, a análise do seu papel na mentalidade social e a sua influência na cultura popular. Por isso, Sarah Paulson tem o papel fundamental durante grande parte do filme, sendo a expressão das indagações que o realizador se coloca.

Pode-se questionar se a ambição de Shayamalan foi, de todo, bem conseguida. É um percurso complicado (e inesperado, diga-se) aquele que o realizador decidiu tomar, e nem sempre o filme consegue ser equilibrado. No entanto, o resultado é algo que tem faltado tantas vezes aos filmes de super-heróis: original, inovador. Mesmo quando o filme não consegue cumprir tudo aquilo a que se comprometeu, não se pode questionar que arrisca ser diferente, e que, só por isso, já merece a atenção.

O terceiro ato será onde se irão levantar mais divisões entre quem vê o filme: Shayamalan passa algum tempo a prometer um final explosivo, mas acaba por seguir por outra estrada. Para mim, é a decisão mais coerente com tudo o que filme foi até àquele ponto, e os twists, que, mais uma vez, são arriscados, conseguem criar impacto. É algo diferente do que é costume no cinema mainstream, e Shayamalan nunca perde controlo do jogo nestes últimos momentos, que são a realização derradeira daquilo que foi toda a trilogia.

Glass tem sido fortemente contestado por uma parte significativa da crítica especializada, e o público tem-se visto dividido. Em grande parte, isso pode dever-se às expectativas com que se vê o filme. A verdade é que falamos de uma obra singular, que foge ao panorama do cinema mainstream para oferecer uma visão original dos filmes de super-heróis. Shayamalan nem sempre acerta nas suas ambições elevadas, mas o resultado final é um produto interessante, que só com o tempo poderá ser devidamente apreciado. O realizador prodígio que em tempos conhecemos ainda anda aí – e talvez seja esta a confirmação de que nunca devíamos ter deixado de acreditar nele.

Nota final: 7/10

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: