Crítica: Roma – 2018

Demorei a conseguir escrever sobre Roma. É um filme que exige reflexão – não só enquanto se o vê, mas principalmente depois. Roma é uma ode à vida, um elogio supremo ao espírito humano, num magnífico e poderoso retrato daquilo que Cuáron vê na sua infância. Ocasionalmente aparecem filmes assim – filmes que nos recordam o porquê de nos termos apaixonado pelo cinema, e o porquê de não haver mais honestidade do que a de uma câmara apontada para o exterior, com o intuito de mostrar o interior.

Roma abre com um plano de um chão, que entretanto começa a ser lavado. A câmara não se mexe, mas à medida que a água vai passando vemos o reflexo do céu. Lá em cima, no céu que se estende por cima da casa em Colonia Roma em que trabalha Cleo (Yalitza Aparicio), a mulher que limpa o chão, passa um avião. Outros irão passar, sempre como pano de fundo das personagens, e nunca como elementos principais – mas estão sempre lá, a chamar-nos a atenção, carregando um simbolismo que eventualmente compreendemos.

Cleo será a protagonista do filme. Ao longo da história, iremos conhecer as suas relações com a família para a qual trabalha e, principalmente, com Sofía (Marina de Tavira), a mãe que aguenta a família quando o pai está fora. São duas pessoas bastante diferentes, algo que decorre, em parte, do estatuto social de cada uma – por muito próxima que Cleo seja da família, será sempre a empregada. No entanto, são dois símbolos da construção pessoal de cada uma das crianças, duas mulheres que foram deixadas à sua sorte pelos homens e que, face a circunstâncias complicadas, nunca baixaram os braços. “Nós, as mulheres, estamos sempre sozinhas”, diz a certo ponto Sofía.

Roma é uma ode às mulheres da vida de Cuáron. Ele foi uma daquelas crianças, que teve a sua própria Cleo (o realizador dedica o filme a Libo, a empregada da sua família), a mulher a quem deve muita da educação que recebeu, e que teve Sofía como mãe, uma mãe que se manteve sempre ao lado dos filhos, mesmo nos momentos mais complicados. São estas as mulheres que criaram Cuáron, e por isso o filme torna-se todo ele mais potencial – ele canta a vida de quem ele amou e por quem foi amado.

 

É também um hino ao México, o país que o viu nascer. Roma é dos filmes mais imersos que já vi, e isso deve-se ao cuidado com que Cuáron filmou o seu país – principalmente sonoramente. Visto numa sala de cinema ou em casa, com um bom sistema de som, esta é uma experiência única, em que somos transportados para aquelas ruas, para o México da infância de Cuáron. Encontramos um país marcado por ruturas sociais e políticas, em que o período é retratado com uma subtileza brilhante. Nas mãos de outro realizador, toda a tensão que se vivia no México seria mostrada de forma expressiva, mas em Roma a subtileza é o caminho mais certo.

Em termos técnicos, o filme é impressionante em diversos níveis. Como Emmanuel Lubezki, o colaborador habitual de Cuáron, não estava disponível para assegurar a cinematografia, o próprio Cuáron decidiu tratar do assunto, e o resultado não fica aquém do surreal. Há cenas neste filme que merecem ser estudadas, pela complexidade que envolvem. É dos filmes mais belos dos últimos anos, em grande parte porque Cuáron filma a mais pequena atividade mundana com uma precisão rara, apostando constantemente em cenas longas que aparentam uma dificuldade tremenda.

Como já referido, esta é uma experiência imersiva. O ritmo cuidado, o som fantástico e a cinematografia arrepiaste asseguram isso. Por isso, pouco depois de o filme começar já estamos envoltos na história, já vivemos com estas personagens. Vamos sofrer com elas, e quando o filme atinge o seu climax emocional vamos ficar de rastos. Para explicar o brilhantismo sentimental da obra, seria preciso explicar partes do argumento que não pretendo revelar – cada um merece viver esta obra-prima em primeiro mão, sabendo tão pouco quanto possível. Mas a verdade é que, no final, algo em nós mudou com estas personagens.

Ao ver Roma, recordei-me constantemente do quão belo, genuíno e poderoso o cinema pode ser, e de como uma história aparentemente pequena é tão grande para quem a vive. Há um coração no centro do filme, que palpita com o amor de Cuáron à sua infância, ao seu país e às mulheres que o criaram, num épico de emoções fortes que não nos deixa indiferentes. Uma filme assim não aparece com frequência, mas ainda bem Cuáron nos mantém a acreditar.

Nota final: 10/10

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