Crítica: Sete Estranhos no El Royale (Bad Times at the El Royale) – 2018

A maior influencia que Quentin Tarantino teve no cinema foi criar praticamente um género próprio, imitado repetidas vezes por realizadores sem o talento para o copiarem. A sua descontracção da estrutura clássica do argumento, a violência extremamente gráfica e exagerada e os diálogos rápidos e fiados são imagens de marca do realizador que começámos a encontrar em muitos outros filmes.

É óbvio que Sete Estranhos no El Royale pretendia, pelo menos homenagear o estilo de Tarantino. E aqui as esperanças eram mais elevadas, principalmente devido ao realizador envolvido: Drew Goddard, popularizado por ter dirigido a desconstrução do filme de terror em The Cabin in the Woods. E a verdade é que Goddard dá o seu toque pessoal ao filme, que para mérito seu é um verdadeiro filme de autor. O problema é que isso não é suficiente para ultrapassar um argumento que se estende sem razões para tal.

O conceito base de Sete Estranhos no El Royale é, no mínimo intrigante. O filme apresenta como localização principal o El Royale do título, um hotel que fica entre a Califórnia e o Nevada, atravessado por uma linha que marca a fronteira entre os dois estados. Em tempos ocupado por figuras ilustres, no final da década de 60, quando a histórica começa, é um local de passagem principalmente de quem tem assuntos sombrios por resolver ou vive com escassos recursos. O local alegre e festivo desapareceu para dar lugar a um deserto deprimente.

Logo no início, vários estranhos chegam ao hotel, cada um com as suas intenções. Não irei explicar quem são porque isso iria sempre desvirtuar as voltas e reviravoltas que Goddard tem guardadas para a sua audiência. No entanto, basta referir que existem nomes no elenco como John Hamm, Jeff Bridges, Chris Hemswort e Dakota Fanning que asseguram boa companhia para quem fizer o check-in no El Royale.

Como é óbvio, ao longo da noite as coisas vão dar para o torto, até o filme se tornar num mistério de who’s who?. E a verdade é que este jogo que Goddard lança à audiência até tem potencial, mas depressa começa a descambar sobre si próprio. E é lamentável, porque realmente havia aqui potencial para muito mais.

O problema fundamental é que o filme passa grande parte da sua duração a ser um exercício de estilo sem grande substância. Claro, é bonito de se ver, e é indiscutível que Goddard criou uma obra que vai ser apreciada pelo seu valor visual durante anos. Mas há pouco mais do que isso. A história avança demasiado lentamente quando não havia necessidade para isso e as reviravoltas são expectáveis.

Acima de tudo, há um problema de ritmo. Sete Estranhos no El Royale acha-se demasiado sofisticado para o seu próprio bem, procurando ser um slow burner. Nisso, tenta claramente imitar Tarantino, apostando em diálogos constantes, e em violência forte mas inconstante. Mas esquece-se do que torna os filmes de Tarantino especiais, uma vez que não tem nada a dizer. Pode haver aqui algum comentário social interessante, mas a maior parte dele não justifica que o filme seja tão lento, cometendo o erro grave de abrandar onde devia acelerar e de acelerar onde devia abrandar.

De resto, é um filme bastante competente. A verdade é que nunca é menos do que entretenimento capaz, nem que seja pelo facto de vermos atores como estes a darem excelentes interpretações. Para além disso, o estilo do filme assegura que pelo menos merece ser visto, sendo que é realmente algo que se destaca.

O mais dececionante com Sete Estranhos no El Royale é que podia ser muito melhor do que aquilo que é. Goddard deixou-se apanhar em homenagens e no seu próprio estilo e falhou em campos graves como o argumento e o ritmo. Não deixa de ser uma estadia agradável, mas podia ser tão mais do que isso.

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