Crítica: Venom – 2018

Após acabar de ver Venom, ficou-me uma questão que considero pertinente: será que os argumentistas, quando escreveram a frase “like a turd in the wind”, repetida infinitas vezes em trailers, spots televisivos e tudo o que é marketing, sabiam que estavam a descrever perfeitamente o seu filme? Ou será pior do que isso e acharam apenas que o que estavam a escrever era excelentes e tinha piada como tudo? Uma parte de mim quer que a resposta seja a primeira opção, mas outra tem perfeita noção de que, com grande grau de certeza, a verdade é a segunda opção.

Venom parecia uma má ideia desde o início. Fazer um filme sobre a personagem sem qualquer ligação ao Spider-Man, que por motivos contratuais anda a dar espetáculo no MCU, parecia não fazer grande sentido. É claro que Venom ia ter de ser um anti-herói, mas mesmo assim parecia que isto dificilmente ia resultar. A verdade é que ainda mantive algumas expetativas quando Tom Hardy foi anunciado como protagonista. Hardy é dos autores mais talentosos da sua geração, e é raro o seu nome aparecer associado a filmes que sejam verdadeiramente maus. Mesmo os mais medianos são suficientemente diferentes para se perceber porque é que o autor decidiu arriscar.

E até se percebe porque é que provavelmente Hardy decidiu assinar: Venom é uma personagem interessante, que oferece um desafio a um ator como ele que gosta de projetos diferentes. Tinha aqui a oportunidade de interpretar duas personagens (algo que já não é novo para si, que interpretou dois irmãos em Legend), e de abordar um compasso moral que seria interessante. O problema é que o filme nunca o ajuda, e na maioria do tempo Hardy parece não saber muito bem o que fazer. Mas já lá vamos.

É curioso, mas o argumento de Venom parece tirado de um filme de super-heróis do início do século. A personagem principal que nos é apresentada é Eddie Brock, um “jornalista de investigação”. Porquês as aspas? Porque apesar de o filme querer fazer parecer que ele está no topo da profissão, apenas parece um péssimo jornalista. Mas seguindo em frente. Um dia, Eddie é destacado para entrevistar Carlton Drake (Riz Ahmed), um CEO de uma empresa que anda a fazer umas experiências tendencialmente inumanas e que claramente vai ser o vilão do filme.

Ao longo da entrevista, Eddie demonstra toda a sua incompetência como jornalista, é despedido, e perde a namorada (Michelle Williams, num papel que devia ser crime por não lhe dar nada para fazer). No entanto, Eddie não desiste de tentar descobrir o que é que Carlton anda a fazer, e após uma dica de alguém que supostamente conhece as suas atividades, Eddie vai até aos laboratórios onde descobre que Carlton anda a utilizar parasitas para realizar experiências. Como é óbvio, Eddie é infetado por um, passando a ter de conviver com um novo melhor amigo.

Tudo isto é contado com enormes problemas de ritmo. O filme ora acelera onde não devia, ora demora demasiado tempo onde não queremos que o faça. Tom Hardy disse numa entrevista que os seus 40 minutos preferidos do filme foram cortados, e dá para perceber que falta ali muita coisa. A história parece demasiado repentina em vários momentos, e há um momento decisivo que tem tão pouco contexto que é um atentado à coerência.

Para além disso, o melhor elemento do filme é obviamente a relação de Eddie e Venom, e infelizmente nem isso recebe o tempo devido. O filme demora demasiado tempo a chegar a isso (os problemas das origin stories…), e quando chega não lhe dá tempo suficiente. Porque tenho de admitir, a relação entre os dois quase que vale o filme. É um bromance que merecia algo melhor, e talvez uma possível sequela (algo que, deixo bem claro, não sei se quero ver) possa resolver isso.

No meio de um argumento tão fraco, até os atores andam perdidos. Hardy faz o melhor com o que lhe é dado, e nota-se o empenho do ator naquele que é possivelmente o melhor aspeto disto tudo. Mas também se percebe a dificuldade que este deve ter tido a navegar num argumento que lhe deve ter sido dificílimo abordar de tão medíocre que é. Mas o grande crime que o filme comete é a forma como trata Michelle Williams. Williams raramente entra em blockbusters, e por isso havia aqui uma oportunidade de lhe dar uma oportunidade de mostrar o que fazia numa registo diferente. E a verdade, a triste verdade, é que não faz nada porque não lhe é dado nada para fazer. Uma atriz com a sua qualidade merecia muito melhor…

A coisa mais paradoxal em Venom é a sua componente visual. O design de Venom é assumidamente brilhante, e os momentos em que Hardy se transforme no anti-herói são impressionantes. No entanto, as cenas de ação são muito mal coreografadas, sendo que no confronto final é difícil acompanhar o que está acontecer.

Venom até pode entreter, mas é um filme muito mau. O argumento é fraquíssimo, as personagens são finas como cartão e nada faz lá muito sentido. É uma pena que talentos como Tom Hardy e Michelle Williams tenham sido gastos nesta coisa, mas às vezes o mundo é um local cruel. De certo modo uma sequela podia resolver muitos dos problemas aqui em questão, mas será que precisamos mesmo de uma sequela?

Nota final: 3/10

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