Crítica: Cold War – Guerra Fria (Zimna wojna) – 2018

Em Cold War – Guerra Fria, encontramos a Polónia a passar por um dos períodos mais negros da sua história. Após o fim do domínio Nazi, trazido pelo final da Segunda Guerra Mundial, o país transitou para outro regime ditatorial, desta vez sendo subjugado ao domínio comunista de Estaline. Este é um país degradado, ferido pela guerra e a sangrar das suas mais recentes feridas, resultantes da substituição da tirania por tirania.

Wiktor (Tomasz Kot) e Irena (Agata Kulesza) andam pelas zonas rurais do país à procura de músicos e dançarinos para uma academia, com o fim de montarem um espetáculo que mostra a beleza da cultua do país, procurando dar voz à arte do povo. Uma das jovens que conhecem e que é levada para audições é Zula (Joanna Kulig), que em vez de cantar uma música tradicional polaca acaba por cantar uma música de um filme russo.

Zula é enigmática, e isso cativa Wiktor. Por isso é que a decide manter na academia, mesmo contra a vontade de Irena. Descobrimos praticamente de forma imediata que realmente nem tudo na vida de Zula é realmente como parece. Desde logo, percebemos que provavelmente não é uma rapariga da zona rural como finge ser. Depois, descobrimos que tentou matar o seu pai, e ainda tem problemas com as autoridades por causa disso.

Wiktor e Zula acabam por se apaixonar. Mas amar num regime opressivo não é fácil, e a situação ainda se torna mais complicada quando ambos têm feitios tão fortes. O seu amor é, na maior parte das vezes, um jogo de poder, uma tentativa de medir forças para ver quem sobrevive mais tempo com o outro. Mas isto apenas acontece porque é uma paixão verdadeiramente intensa. A história é contada ao longo de vários anos, e a verdade é que estes dois nunca deixam de se querer um ao outro.

O realizador, Pawel Pawlikowski, que já venceu um Oscar de melhor filme estrangeiro por Ida, tomou a decisão de filmar Cold War a preto e branco, o que dá ao filme uma estética brilhante, acompanhando perfeitamente o melancolismo da história. Com uma cinematografia belíssima, este é um filme que tem uma componente estética que está à altura do argumento magistral. Num filme saudosista como este, é uma decisão que assenta perfeitamente e dá um toque de requinte ao filme.

O argumento é também construído para dar destaque aos momentos musicais. Este não é um musical, mas a música é um elemento essencial da narrativa. É central para Wiktor e Zula, tanto para a sua relação como para as suas vidas essenciais. Estas cenas são belíssimas, sendo que os espetáculos apresentam coreografias que enchem o olho e músicas direcionadas ao coração.

Em Cold War, a Guerra Fria não é só uma realidade pela qual o mundo está a passar – é também o adjetivo perfeito para o amor de Wiktor e Zula. Este é uma guerra fria constante, intenso mas marcado por feridas e por ressentimentos mútuos, que chegam a poder ser considerados ódio ocasionalmente. Este é um casal que parece que provavelmente nunca vai resultar, e eles sabem isso tão bem como nós, mas não conseguem evitar estar juntos. Mesmo que isso signifique que vão ter de acabar por se destruir um ao outro.

Pawlikowski apresenta a história em vários anos, sendo que se dão avanços singificativos sem que nos seja dito o que aconteceu. Mesmo quando nos mostra a história que tem para contar, sentimos que faltam palavras ou ações, ou que falta a conclusão do momento. É o realizador a convidar o espectador a preencher os espaços em branco, enquanto lhe diz que há momentos que são só destes dois amantes, e que não nos dizem respeito.

O filme é também bastante curto, tendo menos de noventa minutos. No entanto, isto permite que Pawlikowski procure a perfeição em cada cena, apresentando um filme em que cada momento tem um impacto profundo. Não há qualquer desaproveitamento de tempo aqui: tudo tem um propósito. Cada linha de diálogo é perfeita, cada gesto tem um fim. É o resultado do trabalho de alguém que contra perfeitamente a sua arte, sabendo que não é preciso um filme estender-se por mais do que o necessário.

As últimas cenas de Cold War representam um dos finais com mais marcantes dos últimos anos. Quando aqui chegamos, a conclusão já é relativamente esperada, mas não deixa de nos agarrar. Dizer o que acontece seria estragá-lo, e cada um merece poder descobri-lo por si próprio. Resta dizer que é tão forte, que quando o filme acabou, ninguém na sala se levantou da cadeira. Foi preciso os créditos terminarem e as luzes da sala se acenderem para as pessoas começarem a sair, num silêncio de quem ainda estava a tentar processar tudo o que tinha visto.

Curiosamente, diria que Cold War é uma mistura atípica entre Casablanca e La La Land. O romance central do filme tem elementos de ambos, e é impossível não sentir um certo saudosismo por filmes como Casablanca, e é mais impossível ainda não ser contagiado por esse saudosismo. No entanto, é um filme muito próprio, e não o dizer seria negar o seu estatuto.

Cold War é um dos relatos mais belos e trágicos dos últimos anos sobre o amor em tempos de opressão, e sobre a forma como este pode destruir aqueles que sentem intensamente. Aqui, o amor é uma verdadeira guerra fria, mas uma que vale a pena travar, por mais feridas que fiquem. Poucos realizadores estão à altura de alcançarem um filme tão bem conseguido, mas a forma como Pawlikowski conjuga a narrativa com uma componente visual brilhante torna o filme num clássico moderno. É uma obra-prima que merece ser descoberta.

Nota final: 10/10

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