Tesouros Desconhecidos: The Florida Project – 2017

Ao longo do desenvolvimento do Walt Disney World em Orlando, na Flórida, o nome do projeto era “The Florida Project”. É esse nome que inspira o título do mais recente filme de Sean Baker, uma vez que a sua história se passa nos motéis ao lado do parque de diversões mais conhecido do mundo. Baker centra-se neste neste espaço com objetivos específicos, apontando mais uma vez a sua lente a realidades que o cinema tantas vez ignora.

Baker já vinha a dar que falar no circuito indie, e o seu estatuto saiu reforçado quando em 2015 lançou Tangerine, que acompanhava a vida de transexuais em Los Angeles. O motivo que mais deu que falar no filme foi o facto de ser filmado apenas com câmaras de iPhones 5S, uma técnica que dava um aspeto visual ao filme diferente do habitual, mas para além disso urgia a promessa de um realizador com uma forte consciência social, interessado em histórias reais, de pessoas reais.

Se Tangerine era a promessa de Baker, The Florida Project é a sua consagração. O realizador atira-nos para uma realidade que muito poucas vezes vemos em filmes. Começamos por conhecer Moonee, uma rapariga de 6 anos que vive no motel Magic Castle ao lado do Walt Disney World. Moonee vive com a mãe, Halley, uma jovem que vive perdida, que provavelmente fez uma série de escolhas duvidosas na vida para chegar àquele ponto. Quando nos é dado a conhecer este mundo, é o início do verão.

Moonee passa os dias com Scooty, outro rapaz que vive no motel, e com Jancey, que vive com a avó num motel adjacente, uma vez que a mãe não tem capacidades de a ter em casa. Os seus dias são passados em aventuras e desvarios. Ora estão a cuspir um carro todo, ora a desligar toda a eletricidade do motel. A mãe de Moonee não é muito atenta, mas ama imenso a filha à sua maneira.

 

Este é um relato de uma América esquecida, daqueles que com a crise perderam as suas casas e passaram a viver neste género de moteis, praticamente como sem-abrigos, saltando de trabalho para trabalho quando os encontram. Baker dá-nos a conhecer uma realidade que tantas vezes preferimos ignorar: a miséria atinge mesmo aqueles que trabalham, e a miséria pode viver mesmo ao lado de um dos sítios mais alegres do mundo.

O filme é contado principalmente a partir do ponto de vista de Moonee. É com ela que deambulamos por este mundo, percebendo como alguém para quem a vida nunca sorri consegue ser feliz à sua maneira. Moonee transforma Magic Castle, com as suas paredes cor-de-rosa que por si só dão um tom de conto de fadas ao local, num lugar das suas fantasias, onde aprende a fingir que ignora a sua realidade. Ela e os seus amigos ocasionalmente são mal-educados e têm comportamentos bastante questionáveis, mas não faz isso parte da inocência de quem ainda está a crescer, ainda para mais num ambiente como este?

A atriz que faz de Moonee é a jovem Brooklyn Pierce, uma verdadeira descoberta de Baker. Pierce é uma força da natureza, uma atriz que com a sua terna idade tem mais maturidade do que muitos atores que andam a vida toda nisto. Ao lado dela está a atriz que interpreta a sua mãe, a também estreante Bria Vinaite, que Baker descobriu através dos seus posts do Instragam. As duas atrizes acrescentam um realismo enorme ao filme. O seu talento é notável, e poucos atores conseguiriam fazer o que estas fazem aqui. O facto de serem dois nomes desconhecidos tornam tudo ainda mias credível.

O nome mais sonante do elenco é Willem Dafoe, que interpreta o gerente do motel, na sua melhor interpretação em muito tempo, justamente nomeada para o Oscar de melhor ator secundário. Dafoe interpreta um homem bondoso, que se tem de fazer duro pelo posto que ocupa. No entanto, é a figura paternal de todas as personagens principais, sempre disposto a protegê-las. A performance de Dafoe é um tour de force, perfeito para completar os desempenhos gigantes de Pierce e Vinaite.

Baker dá ao filme uma carga visual brutal, sempre repleta de cores fortes, principalmente com um cor-de-rosa tom de algodão doce. É o design perfeito para o mundo de Moonee, um mundo de fantasia e de escapismo. Tudo isto é também filmado de uma forma quase-documental: Baker limita-se a mostrar os eventos, sem fazer grandes juízos de valor. Estas personagens falam por si próprias, e o mundo que lhes é dado a habitar também.

O facto de toda a história se passar ao lado do Walt Disney World torna tudo ainda mais forte. Moonee sabe o que existe a tão pouca distância, mas provavelmente nunca lá foi. No entanto, o seu mundo de fantasia rivaliza com este. Umas casas abandonadas perto do motel servem para simular casas assombradas. Um vale lá perto com alguns animais é o seu próprio safari. É um elogio ao próprio poder da imaginação de uma criança, capaz de ultrapassar as condições mais difíceis.

E, no entanto, não há nada mais poderoso do que o próprio final. Seria insensato revelar o que acontece, mas Baker apresenta algo que funciona como uma catarse para tudo o que veio antes. É extremamente duro, e não será para o gosto de todos. No entanto, é um momento tão profundo que vai ficar com quem o vir durante muito tempo.

The Florida Project é sobre a América esquecida por si própria. É sobre aqueles que estão perdidos e não parecem ter grandes chances de se encontrar. É sobre a infância e o poder da imaginação. Acima de tudo, é um dos melhores filmes do ano passado, uma experiência que nos deixa emocionalmente exaustos mas que é extremamente gratificante. Poucos realizadores vão onde Baker foi. E ainda bem que teve a coragem de lá ir.

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