10 anos depois, The Dark Knight mudou Hollywood

Fez na semana passada 10 anos que The Dark Knight estreou. Com uma quantidade de hype raramente vista até então, o filme dominou completamente o buzz online e conseguiu resultados enormes na bilheteira e uma onda de apoio crítico que nunca se viu nem se voltou a ver no género. 10 anos depois, The Dark Knight mudou a indústria, que nunca mais voltou a ser a mesma – e provavelmente nunca mais vai voltar a ser.

Para se perceber o sucesso de The Dark Knight temos de recuar a 2005, quando a Warner Bros lançava Batman Begin, um reboot de uma das personagens mais icónicas da história da banda desenhada, que desde que Batman & Robin fora rejeitado pela crítica e pelas audiências tinha ficado adormecida no panorama cinematográfico live-action.

Batman Begins era realizado por Christopher Nolan. Até aí, Nolan tinha realizado os fortemente aclamados (e já filmes de culto) Memento Insomnia. No entanto, o mundo dos grandes blockbusters, com o controlo apertado dos produtores dos estúdios e a pressão acrescida pelas expetativas elevadas de retorno financeiro, era um mundo totalmente novo para o realizador britânico. Mas este esteve à altura do desafio.

O filme teve uma receção crítica bastante positiva, tal como todos os trabalhos do realizador até então, e conseguiu ser um relativo sucesso de bilheteira, fazendo cerca de 374 milhões de dólares num orçamento de 150 milhões de dólares. Mais importante do que tudo isso, a maior conquista de Batman Begins foi fazer com que as pessoas se interessassem novamente por estas personagens, e particularmente com a visão que Nolan tinha delas, colocando-as num mundo mais negro e realista.

A Warner Bros percebeu que tinha todo o potencial para trazer Batman de volta à sua antiga glória, e por isso decidiu avançar com a sequela. No entanto, não apressaram as coisas, dando tempo a Nolan de reunir a equipa toda de novo e arranjar uma história que merecia ser contada. No entanto, o vilão do segundo filme estava escolhido desde 2005: Joker, devido a um easter egg deixado no final de Begins.

O estatuto de Begins foi-se consolidando entretanto, sendo descoberto cada vez mais no mercado de DVD,e o seu estatuto era cada vez maior. Isto fez com que os fãs fossem sendo cada vez mais, e o buzz para a sequela fosse aumentando proporcionalmente. Cada notícia era recebida com uma antecipação palpável, enquanto Nolan ia dando os primeiros passos para um sucesso que ninguém ainda podia prever.

Uma das notícias que dominou o desenvolvimento do filme foi o casting de Heath Ledger como Joker. O ator, reconhecido como um dos talentos a observar da sua geração, tinha mais do que provas dadas para o papel, mas parte dos fãs torceu o nariz, ainda muito influenciados pela interpretação de Jack Nickolson do famoso palhaço e achando que o ator não tinha o perfil necessário.

Esse medo seria completamente dissipado, uma vez que a interpretação de Ledger foi desde os primeiros trailers um dos elementos mais elogiados do filme. No entanto, a tragédia acabou por acontecer em janeiro de 2008, meses antes da estreia do filme: Ledger faleceu aos 28 anos. As suas cenas estavam filmadas, e para a história ficaria a melhor interpretação de sempre num filme de super-heróis, reconhecida pela Academia com um Oscar de melhor ator secundário póstumo.

A morte de Ledger chocou o mundo, e se até aí The Dark Knight já era dos filmes mais aguardados de que havia memória, depressa se tornou num dos maiores eventos cinematográficos de sempre. A expetativa pela sequela de Nolan juntava-se à vontade de honrar um ator que morrera demasiado cedo, e que tinha aqui um papel final que já se anunciava revolucionário.

Foi neste contexto que chegou o dia 18 de julho de 2008, data de estreia do filme nos EUA. Nos últimos dias, o filme tinha conquistado a crítica, que se rasgava em elogios ao novo filme de Christopher Nolan – não estávamos perante apenas o melhor filme de super-heróis de sempre, mas possivelmente perante um dos melhores blockbusters de todos os tempos.

A bilheteira atuou em conformidade. O filme bateu recordes nos EUA para maior estreia nas sessões de ante-estreia, maior dia de estreia e maior fim-de-semana, arrecadando uns enormes 158 milhões. O filme não se ficou por aí, atingindo uns impressionantes 534 milhões no total nos EUA e chegando a uma receita total acima dos mil milhões de dólares a nível mundial, algo extremamente raro na altura.

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The Dark Knight era diferente de tudo o que Hollywood tinha feito até então dentro do género. Em primeiro lugar, não era um verdadeiro filme de super-heróis, estando mais próximo de um filme de crime, na onda de algo como Heat. Apesar de ter um protagonista que se vestia de morcego e um vilão que se maquilhava de palhaço, assentava num realismo exacerbado, o que o distinguia do resto dos filmes que passavam pelas salas.

De certo modo, era o blockbuster perfeito para um mundo que vivia no pós-11 de setembro. Falava diretamente ao medo de um mundo que estava a mudar, e através de uma história de violência deixava um certo véu de esperança. De certo modo, tal como Harvey Dent no filme era o homem de que Gotham precisava, The Dark Knight era o filme de que o mundo precisava em tempos incertos.

A obra de Nolan não é um blockbuster típico. Desde logo, quase que não tem cenas de ação daquelas a que ficámos acostumados nos filmes do género. As que existem são pequenas (a maior envolve uma perseguição do Batmobile a alguns camiões) e existem para servir o argumento, algo que tão poucas vezes acontece. A verdadeira garra do filme estava nos diálogos e nas questões que levantava, que hoje são ainda mais difíceis do que há 10 anos.

The Dark Knight tinha melhores diálogos do que virtualmente todos os filmes que estrearam em 2008. Também tinha melhores personagens. O Joker de Heath Ledger ficou para a história exatamente pelos motivos que o de Leto não conseguiu – porque Nolan e os seus argumentistas perceberam a personagem enquanto alguém que “apenas quer ver o mundo a arder”, como a certo ponto diz o Alfred de Michael Caine.

O Joker de Ledger é (e possivelmente será sempre) o melhor vilão algumas vez retratado num filme do género, e um dos melhores de sempre. O ator consegue transmitir-lhe uma veia de realismo que conduz em harmonia com a loucura da personagem. Joker é perigoso porque é alguém que não parece ter nada a perder. Não conhece qualquer moralismo. No clímax emocional do filme, quando as personagens de Ledger e Bale se confrontam numa cela da prisão, é isto que transparece: Joker não precisa de um motivo para fazer nada do que faz. É tão só um sociopata.

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As questões que o filme levantava também eram difíceis. Nolan recheou o filme de assuntos complexos, como o valor da justiça e do heroísmo. De certo modo, Harvey Dent era o símbolo de tudo isto, um homem que dedicou toda a sua vida a perseguir a justiça mas que se sentiu traído por ela. Num mundo em que o mal impera, até os bons acabam por ceder a toda a injustiça. Dent é um marco em The Dark Knight, aquele que representa um mundo que foi traído pelos seus valores e que nem sempre sabe como lidar com isso.

Tudo isto já foi objeto e longo debate. Na altura foram escritas think pieces intermináveis sobre o filme, discutindo todos os detalhes que se podiam discutir. Tudo isto consolidou The Dark Knight como um os filmes mais marcantes que a indústria alguma vez tinha feito. E isso mudou a própria indústria.

Hollywood decidiu procurar imediatamente o próximo The Dark Knight, disparando a produção de filmes de super-heróis. Todos os estúdios queriam ter o próximo grande sucesso, e foram buscar todas as personagens que podiam para tentarem chegar lá. Surgiu também a tendência de procurar tornar os filmes do género mais escuros, como se notou no reboot de The Amazing Spider-Man.

Foi assim que os estúdios decidiram que o futuro estava nos filmes de super-heróis, e que estes passaram a dominar a indústria. O MCU estava à porta, pronto para dominar as bilheteiras. e própria DC viria anos mais tardes a pagar a fatura de tentar copiar vezes sem conta a aparente fórmula de The Dark Knight de tornar os filmes mais obscuros – sendo que é aí que até reside parte do problema do DCEU atual.

A Warner Bros parece nunca ter percebido que o que resultou na trilogia de Christopher Nolan não foi apenas o tom dos filmes, mas todo o realismo que os filmes possuíam. Isso era possível com Batman, mas não é possível para qualquer super-herói, por muito que o estúdio tente. Os produtores parecem estar finalmente a perceber isso, sentindo-se alterações no estilo dos filmes.

Apesar de todo este rush para os filmes de super-heróis, pode-se dizer que nunca nenhum conseguiu replicar o impacto de The Dark Knigh. Vários já superaram a sua bilheteira (principalmente quando não ajustada para inflação), mas a sua receção por parte da crítica e da audiência continua sem ser alcançada. O filme de Nolan foi um evento, algo totalmente único, que a indústria não consegue replicar. Havia aqui um sentimento de cinema de autor, sentindo-se que o filme era a visão de Nolan e da sua equipa.

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Isso é cada vez mais complicado, com o MCU e o DCEU a serem univrsos fortemente controlados pelos produtores, que tentam aperfeiçoar cada aspeto dos filme a uma fórmula segura e conhecida das audiências. É óbvio que ambos já produziram bons filmes, e até mesmo alguns excelentes filmes, mas nunca conseguiram fazer algo com o nível de originalidade que o filme de 2008 nos apresentou.

Outro aspeto decisivo é que, de certo modo, The Dark Knight ajudou a Internet a tonar-se no local tóxico que conhecemos hoje, repleto de trolls e haters. O filme de Nolan tornou-se num culto, e alguns fãs empenharam-se de tal forma em defendê-lo que começaram a dar origem a comportamentos absurdos e excessivos. Isto teria uma visibilidade acentuada na sequela, quando os críticos que deram notas negativas a The Dark Knight Rises receberam mesmo ameaças de morte. Esta foi uma das bases do comportamente tóxico que ainda hoje assolam o mundo online na era digital.

Por incrível que pareça, The Dark Knight também obrigou a Academia a mudar os Oscars. A Warner Bros percebeu que com tanta aclamação crítica o filme tinha uma chance nos prémios da Academia. Isto foi consolidado quando o filme começou a aparecer em múltiplas listas de melhores filmes do ano e a ganhar prémios prestigiados. Quando chegámos a janeiro, parecia garantido que The Dark Knight ia dominar as nomeações aos Oscars e, principalmente, conseguir a nomeação para o galardão mais importante, o Oscar de melhor filme.

No entanto, isto não aconteceu. Ainda hoje se acredita que a Academia nomeou The Reader no lugar que teria ido para The Dark Knight, um filme que tinha sido recebido de forma muito morna pela crítica e que parecia um típico Oscar-bait, sem grande valor cinematográfico. A verdade é que o público e os críticos ficaram em choque. O favorito ao troféu não foi sequer nomeado, com a Academia a nomear cinco filmes mais pequenos e a ignorar o grande sucesso desse ano.

A contestação foi tanta que a Academia teve de mudar as suas próprias regras: a partir do ano seguinte, passou a ser possível serem nomeados 5 a 10 filmes, com o pretexto de ser possível nomear filmes mais variados, incluindo blockbusters. No comunicado oficial, a Academia nunca referiu The Dark Knight, mas era mais do que óbvio que a mudança era a consequência de o filme ter sido ignorado. Importa referir que esta alteração acabou por mudar muito pouco, pelo menos da forma como se pretendia. O que aconteceu é que passaram a ser nomeados ainda mais filmes indie, alguns dos quais tão pequenos que até então não tinham hipótese de ser nomeados. Isto não é mau ou até necessariamente injusto, mas é… paradoxal, no mínimo.

Quando em 2012 estreou The Dark Knight Rises, era já este o panorama que existia em Hollywood. O último filme da trilogia de Nolan teve de lidar com um panorama totalmente diferente dos dois filmes anteriores, em que os filmes de super-heróis eram cada vez mais constantes e o público obtinha uma expressão enorme pela Internet. Mesmo assim, o filme conseguiu receber novamente uma receção extremamente calorosa por parte da crítica e das audiências, tornando-se num novo fenómeno.

Há 10 anos, quando The Dark Knight estreava, poucos podiam esperar que o filme mudasse tanto a indústria. Muito pouco filmes conseguiram fazer o que a obra-prima de Christopher Nolan conseguiu, e provavelmente muito poucos conseguirão. Hollywood mudou, em muitos casos para pior, em busca do próximo evento deste calibre, e o conceito de fanboy também. Mas em termos de qualidade, continuamos a estar perante o pináculo do género. E provavelmente isso nunca mudará.

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