Clássicos do cinema – Nova Iorque Fora de Horas (1985)

“Different rules apply when it get’s this late. You know what I mean? It’s like after hours”

Nova Iorque Fora de Horas é um dos filmes mais ignorados de Martin Scorsese. Numa filmografia marcada por obras como Tudo Bons Rapazes, Taxi Driver, Touro Enraivecido, The Departed ou O Lobo de Wolf Street, isso não é de espantar. É dos seus filmes menos comerciais, mas também dos mais maravilhosamente estranhos que alguma vez realizou. O próprio Scorsese dizia que era “an exercise completely in style”. No entanto, isso não é verdade, e ele próprio o sabe. Sempre foi mais do que isso.

Para se perceber como é que Scorsese chegou a Nova Iorque Fora de Horas é preciso compreender a fase da carreira em que o mestre americano se encontrava. Scorsese tinha visto recentemente um dos seus projetos de sonho, A Última Tentação de Cristo, ter a sua produção abandonada pela Paramount. O realizador estava a passar por um bloqueio na carreira, tendo intenções de se dedicar a projetos mais pequenos, pelo menos durante algum tempo. Foi aí que o seu advogado lhe entregou um argumento de Joseph Minion, que este tinha escrito para um trabalho enquanto andava na universidade, tendo recebido nota máxima.

A história é simples, mas desconcertante. Paul (um enorme Griffin Dunne) vive de forma claramente enfadonho. Após um dia de trabalho, conhece uma mulher num café que o convida a ir a sua casa. Para isso tem de atravessar Nova Iorque. No táxi até lá, conduzido a uma velocidade absurda, perde a única nota de 20 dólares que tinha, que voa pela janela, mas esse é um detalhe que fica para simbolismo, aparecendo constantemente ao longo do filme – ou então é Scorsese apenas a gozar connosco, a tentar desviar a nossa atenção em sentidos que não interessam.

A partir daí a noite de Paul só fica mais estranha, numa sucessão de acontecimentos que criam uma tensão estranhamente elevada pelo absurdo de tudo o que se passa e a certeza da incerteza da próxima cena. Nunca sabemos bem se Paul perde a cabeça ou se é vítima da loucura da cidade que nunca dorme. Ao fim de algum tempo, tudo o que parecia improvável já conhece a Paul. Este terá de ser perseguido por multidões furiosas e até ser totalmente engessado. E o final não é menos absurdo, levantando mais questões do que dando respostas.

Scorsese via Nova Iorque Fora de Horas como um exercício de estilo, uma hipótese de mostrar que as suas qualidades por detrás da câmara continuavam no topo. E em grande parte é isso que consegue, oferecendo um filme que se aproxima em todas as instâncias de um pesadelo – move-se a um ritmo frenético, nem sempre é claro e parece que lhe faltam algumas peças. E tudo isto é filmado com recurso a truques que mostram que Scorsese estava no pique da sua capacidade, apostando em ângulos de câmara que por vezes parecem estranhos mas que são pensados para desnortear, e em cenários que tendem a fugir aos lugares-comuns para acentuar a vybe de paranóia que se vai acentuando ao longo do filme.

No entanto, dizer que estamos perante um mero exercício de estilo é rebaixar aquilo que Scorsese consegue em Nova Iorque Fora de Horas. São poucos os filmes que se aproximam da demonstração cinematográfica de um pesadelo, e isso é conseguido muito em parte através do argumento de Minion. Para além disso, há muito contexto escondido no filme, alvo de discussão nas comunidades cinéfilas desde o seu lançamento. Há um significado no meio de tudo isto, tem de haver. Mas nem sempre é óbvio, e é aí que reside grande parte da magia de Scorsese como realizador – as suas melhores obras não se oferecem de bandeja ao espectador (pelo menos não na sua totalidade e raramente na primeira visualização).

Talvez Scorsese quisesse pintar Nova Iorque com um state of mind, que acaba por levar os seus à paranóia. Ou então queria levar o espetador numa viagem ao íntimo de um pesadelo demasiado real. Há também traços de análise a doença mental, um tema tão central em Taxi Driver. Ou então é um pouco disto tudo ao mesmo tempo. Ou então nada. Mesmo sem respostas absolutas, a verdade é que este é um clássico incontornável de Scorsese, seja um mero exercício de estilo ou não.

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