Tesouros Desconhecidos: Paterson – 2016

Paterson encontra beleza naquilo que o cinema tão poucas vezes retrata – o quotidiano. Tão só o quotidiano. A sucessão de dias à primeira vista iguais, sem grande magnitude no plano geral do mundo e da história, mas com implicações para as vidas que os percorrem.

O título do filme é o nome do seu protagonista e da cidade em que vive. Paterson (um genial Adam Driver) é motorista de autocarros. Todos os dias acorda antes das sete da manhã, ao lado da sua mulher, Laura (Golshifteh Farahani). Toma o pequeno-almoço e segue para o trabalho. Antes de começar o turno, escreve poesia, sentado solitariamente no autocarro. Também o faz nalgumas pausas de almoço. Quando acaba o dia de trabalho, chega a casa, repara todos os dias a caixa do correio que por algum motivo está descaída, e janta os cozinhados “exóticos” de Laura. A seguir, vai passear o cão e para pelo bar para beber uma cerveja, antes de voltar para casa e adormecer.

Durante o dia, Paterson ouve as conversas dos passageiros do autocarro que conduz. Às vezes sorri perante o que ouve. São as mundanidades da vida comum. Um par de jovens que se consideram anarquistas falam sobre outros anarquistas que viveram naquela cidade. Dois amigos discutem sobre as suas supostas vidas amorosas. Paterson ouve em silêncio, esboçando ocasionalmente um sorriso.

Não há conflito em Paterson. Não há qualquer grande ponto de argumento há espera ao canto. Não é esse o objetivo de Jim Jarmusch. Jarmusch, nome consolidado no cinema indie americano, procura mostrar que existe beleza nos pequenos detalhes da vida, capazes de rivalizar com qualquer grande história. Tal como alguns dos mais belos poemas, Paterson é sobre o banal, aquilo que parece tão insignificante mas tem um impacto específico na vida, não geral, mas de cada um.

Paterson escreve sem se preocupar sobre se alguém irá alguma vez ler as suas criações. Escreve sobre a sua vida e as banalidades dos seus dias. No primeiro poema que o vemos escrever, começa por falar de fósforos e dos que utiliza em casa. Chama-se “Love Story”. É melancólico mas belo, e flui de um grande autor que não o quer admitir. São estes momentos que tornam este filme em algo tão belo que tem de ser visto – as palavras vão aparecendo no ecrã, enchendo-o. O cinema pode ser um espaço de poesia, e Paterson sabe perfeitamente isso.

Perto do final, há um acontecimento que quase parece uma tragédia na vida de Paterson. É um acontecimento que choca com toda a calma que tínhamos visto até aqui. Quase que parece que vem de outro filme. No entanto, Jarmusch não perdeu a atenção ao que está a fazer – a seguir retoma imediatamente o seu estudo do quotidiano, mostrando como aquele evento o afetou. É tão pequeno neste mundo, mas tão significativo para estas vidas.

Paterson é sobre histórias pequenas. Não há aqui conflito. É sobre os dias de uma vida comum que é especial, sobre alguém que tem um talento imenso mas que não quer que o mundo saiba. É sobre o quotidiano e a sua beleza ignorada. Tal como alguns dos melhores poemas, é maravilhosamente simples mas esconde complexidade em cada palavra. É prova de que é possível fazer poesia no cinema.

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