Hereditário – a maldição do terror arthouse nas classificações das audiências

Ainda não tive oportunidade de ver Hereditário. No entanto, a fama do filme persegue-o, com os críticos a rebentar em aplausos efusivos que apontam este como sendo um dos filmes mais assustadores e mais promissores do seu género em muito tempo. Basta ver as notas agregadas para se perceber que já estamos perante um dos filmes do ano – 87% no Metacritic e 92% de críticas positivas no Rotten Tomatoes (neste último com uma média de 8.3/10).

A A24, estúdio por detrás do filme, não é estranha a filmes de terror mais vocacionados para o arthouse que alcançam estatuto de novos clássicos junto da crítica. Nos últimos anos, apresentar algumas das obras mais bem recebidas do género com The Witch e It Comes at Night. São slow-burners que aceitam mais na construção do que em sustos baratos, e que tendencialmente conquistam os festivais por onde passam. No entanto, existe outra situação que tem sido constante: depois dos aplausos da crítica especializada, vem o desagrado do público.

No cinemascore, uma companhia que realiza inquéritos à saída das salas de cinema norte-americanas para averiguar o que é que os espectadores acharam do filme, classificando o filme entre A+ e F, Hereditário conseguiu um muito baixo D+, chocando fortemente com os louvores que lhe vinham sido feitos pela crítica. No entanto, esta foi apenas mais uma demonstração desta tendência.

Olhando para os dois outros filmes da A24, ambos também amplamente aplaudidos pela crítica, The Witch recebeu um C- e It Comes at Night foi estampado com um D. No ano passado, um filme típico de arthouse, Mãe!, foi “congratulado” com a classificação mais baixa possível – um F. Aniquilação, que nos EUA, foi distribuído em sala, recebeu um também baixo C. Todos estes filmes foram bem recebidos pela crítica, mas falharam em agradar os públicos. É uma tendência constante, que, se bem vista, devia ser utilizada como uma medalha de orgulho por estes filmes.

Todos eles são filmes que se aproximam do cinema indie americano, filmes vocacionados para arthouse crowds, mas que foram vendidos como filmes de terror mais convencionais, capazes de agradar às audiências mais mainstream, que preferem os sustos fáceis ao slow-burn e ao psicológico. Por isso, existe, para muita gente, uma forte frustração de expectativas quando recebem algo que não é aquilo que procuram, algo que leva a estas classificações.

No entanto, os filmes que recebem estas classificações no cinemascore estão perante uma espécie de congratulação, porque alcançaram muitas vezes o que queriam. São diferentes o suficiente para que as audiências não os percebam, ou então conseguiram ser tão negros que afastaram o público. Quando Mãe! recebeu aquele F, quero acreditar que Darren Aronofsky olhou para ele não com desilusão, mas sim com orgulho, sabendo que tinha alcançado a controvérsia que queria.

Os filmes de terror que vivem numa vertente mais indie devem estar preparados para receber más reações da crítica. Mais do que isso, os media não podem reagir negativamente quando um filme como Hereditário recebe um D+, porque isso não significa que o filme se tenha tornado de repente em algo terrível, totalmente diferente do que os críticos viram, mas antes que o filme não foi vendido como devia ou então foi demasiado diferente para o que as audiências esperaram. Acima de tudo, os estúdios que têm a bravura de lançar estes filmes têm de aprender a utilizar estas classificações não como uma letra escarlate de vergonha, mas como uma medalha de honra.

2 thoughts on “Hereditário – a maldição do terror arthouse nas classificações das audiências

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  1. Sem dúvida o trabalho do elenco é incrivel. Bons atores nos filmes de terror e eu amei Bill Skarsgard, é uma das azoes pelas quais o filme teve resumos positivos e tambem por tudo o elenco. filme a It a coisa foi um excelente trabalho de produção da maquiagem, guarda-roupa e design de Pennywise, vale muito à pena, é um dos melhores do seu gênero. Espero que a segunda parte tenha a mesma qualidade de atuação e como eles desenvolvem a história.

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