Crítica: Mundo Jurássico: Reino Caído (Jurassic World: Fallen Kingdom) – 2018

“The Park is Gone”.

Foi esta a catch-phrase de toda a campanha de Reino Caído. Se no seu antecessor de 2015 havia a promessa de que o parque estava finalmente aberto, agora a ideia é de que ele se foi no seguimento dos eventos desse quarto tomo deste Mundo Jurássico.

E o filme não perde tempo a estabelecer este novo status quo, apagando tudo o que veio antes para poder continuar para o futuro. E Reino Caído não perde tempo a começar a pôr-se em marcha. Depois de um prólogo que estabelece algo que vai ser fundamental para a evolução do argumento, ficamos a saber que o vulcão da Isla Nublar, onde se situava o parque, está prestes a explodir, pondo em causa a vida dos dinossauros que ainda estão vivos no local.

Será isto que dará folgo ao primeiro ato do filme, que vai trazer de volta os protagonistas do filme anterior. Owen (Chris Pratt) e Claire (Bryce Dallas Howard) seguiram com as suas vidas em separado depois do desastre no parque em 2015. Owen vive isolado, a construir a sua própria cabana, enquanto Claire se tornou ativista pelos direitos dos dinossauros. Ambos vão ter de voltar ao parque para (supostamente) resgatarem as criaturas, algo que vai constituir o folgo do primeiro ato.

Felizmente, quase tudo o que os trailers mostraram passa-se nestes primeiros 45/60 minutos. No final destes vem uma set-piece que por si só vale o preço do bilhete, quando o filme se encarrega de se tornar num filme de desastre, trazendo o apocalipse à saga. É uma construção de efeitos visuais brilhante, daquelas que se pedem de um filme destes. Podem haver vários pontos que não fazem qualquer sentido lógico, mas o espetáculo visual está assegurado.

Da realização saiu Colin Trevorrow (que mantém créditos de argumentista) para dar lugar ao espanhol J.A. Bayona, mais conhecido por filmes “pequenos” como O Orfanato ou A Monster Calls do que por estas grandes produções de Hollywood. Curiosamente, é quando Bayona pode fazer o jogo em que é mestre, dando carga de suspense e de emoção ao filme, que este sobe em qualidade. Bayona é um realizador que percebe da arte, e quando tem liberdade torna este num dos capítulos mais interessantes da saga. Daí que o segundo e o terceiro ato pareçam quase uma lufada de ar fresco.

Depois de um primeiro ato em que se sentem todos os milhões gastos, Bayona decide descer completamente a escala do filme. Dizer como seria estragar as surpresas que o filme guarda, mas a verdade é que, sem se comprometer a nenhum género em específico, o realizador joga muito mais com os artíficos dos filmes de terror e dos thrillers, conseguindo, em certos momentos, replicar alguma da magia do original de Spielberg. É pena que não tenha podido abraçar completamente aquilo que se nota que pretende fazer, mas mesmo assim é suficientemente diferente para se poder dizer que há traços de Bayona no filme.

O elenco faz o que lhe é pedido, sem ter muito tempo para brilhar no meio da carnificina. Pratt continua a entregar uma interpretação mais séria do que aquelas porque geralmente é conhecido, o que torna algo low-key durante todo o filme, enquanto Howard continua a dar cartas como sendo a verdadeira protagonista da trilogia. Dos filmes originais, Jeff Goldblum veio dar um jeitinho num cameo que deve ter sido filmado durante o almoço doutro filme, sendo, no entanto, um piscar-de-olho para os nostálgicos doutros tempos, enquanto BD Wong continua a ser das personagens mais cativantes da saga.

O filme tenta jogar com alguns assuntos sérios, como o tráfico de animais e a moralidade de toda a saga, sem nunca conseguir ser suficientemente profundo. É uma tentativa nobre, mas que se sente que foi mal aproveitada e mal desenvolvida, nunca estando para além do segundo plano em relação ao espetáculo visual que se pretende oferecer. O argumento também apresenta algumas falhas, nomeadamente as típicas decisões etúpidas que tanto enervam quem assiste, mas que acabam por ser desculpadas pelo produto geral.

O mais admirável de tudo é mesmo o quão pequeno o filme se torna em grande parte da sua segunda metade. Bayona recua na escala para seguir em frente, oferecendo algo que é divertido e inteligente em termos de construção, levando a saga para caminhos novos. No entanto, nem tudo corre bem aqui, uma vez que o filme ocasionalmente se distrai a preparar a sequela, lançando algumas “bombas” que poucas ou nenhumas consequências têm, esperando-se que sejam resolvidas no próximo tomo.

E o final é possivelmente o mais aberto é possível. É um final que não vai agradar a todos, mas que abre um mundo de possibilidades para o que virá a seguir, honrando o passado mas largando-o para que possa haver um futuro. Não sei para onde é que isto vai, mas tenho de admitir que pela primeira vez em muito tempo no que diz respeito à série estou curioso para o saber.

Mundo Jurássico: Reino Caído pode não ser arte muito elevada, mas é entretenimento de grande nível. Pode ser ocasionalmente estúpido e ter algumas decisões muito questionáveis, mas consegue oferecer algo diferente, percebendo que mais pequeno pode ser melhor. Se procuram um blockbuster de verão que precisa de ser visto no maior ecrã possível, então não precisam de procurar mais.

“Welcome to Jurassic World”, diz Jeff Goldblum no final do filme. Aceitem o convite e apreciem a viagem.

Nota final: 7,5/10

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