Crítica: Chama-me Pelo Teu Nome (Call Me by Your Name) – 2017

Na sua essência, Chama-me Pelo Teu Nome é sobre a descoberta do primeiro amor. É sobre a procura do próprio e a descoberta da maturidade. É um filme sobre relações humanas, vividas por pessoas verdadeiras. É sobre tentar perceber emoções que surgem pela primeira vez, sejam elas o amor ardente ou o sofrimento até então impensável. O filme de Luca Guadagnino é uma orquestração bela e melancólica sobre o fim da infância e a perda da inocência e tudo o que isso acarreta.

1983, “algures no norte de Itália”. Elio (Timothée Chalamet) tem dezassete anos e vive com a família. O pai é professor de arqueologia, e naquele verão, tal como nos anteriores, prepara-se para receber um assistente acabado de se licensiar. Este ano é Oliver (Armie Hammer), um americano que anda algures nos seus 20 anos.

A chegada de Oliver começa por não ser bem aceite por Elio. O americano vai-lhe ficar com o quarto e as suas maneiras são algo estranhas. Basta ver o típico “later” com que se despede das pessoas. Apesar disto, Elio vai passando tempo com Oliver, mostrando-lhe as redondezas e acompanhando-o enquanto cumpre algumas tarefas. Enquanto isso, vai também vivendo a sua vida, que está a entrar na fase da idade adulta: lê, escreve música, sai à noite. Vai tendo um romance com Marzia, uma jovem que já conhece há uns anos e com quem está finalmente a desenvolver uma relação a sério.

Enquanto isso, vai-se interessando cada vez mais por Oliver. Talvez seja, como o próprio Elio diz perto do fim do filme, por serem ambos tão inteligentes. Essa poderia realmente ser uma razão, mas é óbvio que há algo mais. Oliver representa um novo mundo para Elio, um conjunto de emoções que ele nunca pensou sentir. Surge-lhe uma paixão por Oliver, um amor ardente que talvez seja o primeiro da sua vida. É a descoberta da paixão e daquilo que ela significa. Da obsessão à dor, vai ser a primeira vez que Elio vai sentir desta maneira.

Mais do que um filme sobre personagens, Chama-me Pelo Teu Nome é um filme sobre relações. Elio e Oliver sentem uma tração um pelo outro, e é esse o tema principal do filme. Às vezes parece que nenhum deles percebe muito bem o que é que os atrai. Ambos parecem ter medo daquilo que sentem e tentam reprimi-lo, mas não conseguem. É demasiado verdadeiro, demasiado honesto.

Pode-se considerar que o ponto máximo do êxtase da sua relação é quando ocorre o ato sexual entre os dois. “Chama-me pelo teu nome, e eu chamar-te-ei pelo meu”, diz um dos amantes ao outro neste momento. No entanto, é mais neste género de frases que está a essência do seu relacionamento do que no ato carnal propriamente dito. É uma ligação que mais do que física, é emocional, como dirá o pai de Elio perto do fim do filme.

Até porque a própria relação de Elio com Marzia parece aceitar mais na componente física do que a que tem com Oliver. Com Oliver, Elio descobre-se e permite que Oliver se descubra a si próprio. Guadagnino disse numa entrevista sobre o filme que pretende fazer uma sequela sobre o filme e que se calhar nenhum dos protagonistas é homossexual. É possível que seja mesmo assim, porque tanto Elio como Oliver têm outros relacionamentos. No entanto, o que têm um com o outro é especial e vai marcá-los para sempre.

Todo o filme sai ainda mais vivo graças às interpretações magistrais dos seus atores, principalmente o jovem Timothée Chalamet. Chalamet domina o ecrã sempre que aparece, com uma intensidade dramática que transparece em cada frame. É a confirmação de um talento a acompanhar, que se apresenta aqui num papel que nunca é fácil mas que o jovem domina com uma classe que é difícil de encontrar na sua idade.

Este é também um dos filmes mais belos a chegar às salas em 2017. Guadagnino dá-lhe uma entidade própria, com um sentido de localização que marca todas as imagens do filme. A construção é espantosa ao ponto de que quando o filme chega ao fim, parece que vivemos o verão com estas personagens. Estivemos nesta terra do norte de Itália, acompanhámos estas vidas como se as conhecêssemos desde sempre.

Acima de tudo, Chama-me Pelo Teu Nome é poesia visual com personagens verdadeiras e relações humanas sinceras, um filme constantemente honesto e belo. É uma análise fundamental ao que significa crescer e descobrir o amor  e posteriormente tudo o que ele traz consigo, numa idade em que a vida adulta ameaça chegar e a infância parece estar demasiado longe para voltar. É um filme que precisa de ser descoberto por cada um.

Nota final: 8,5/10

 

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