Crítica: Linha Fantasma (Phantom Thread) – 2017

Nunca esperei que Linha Fantasma fosse aquilo que é. Entrei na sala com expectativas de algo, saí completamente surpreendido com um resultado totalmente diferente. Aliás, o filme durante os seus primeiros 20 minutos parecia seguir no caminho que eu esperava que seguisse. Até que de repente, Paul Thomas Anderson mostra porque é que é um dos autores mais importantes do cinema americano, criando uma obra-prima que muda de rumo quando menos esperamos.

O filme começa com Reynolds Woodcok (Daniel Day-Lewis), um estilista de renome, a trabalhar. Percebe-se imediatamente o rigor de quem trabalhar para criar arte. Sempre que Reynolds está a desenhar ou a retocar um vestido, há um brilho cortante no olhar, uma expressão facial de total concentração no trabalho em mãos. Percebe-se que é obsessivo pelos mais ínfimos detalhes, sendo esse um dos motivos para o génio que é. Com ele vive a sua irmã, Ciryl (Leslie Manville), que o auxilia no processo criativo.

Cedo percebemos que Reynolds coloca a vida profissional à frente de qualquer relacionamento pessoal. Logo nas primeiras cenas vemo-lo a pedir a Ciryl para se “livrar” da mulher que vive com ele. A única mulher de quem parece não se fartar é a própria mãe, já falecidas mas que Reynolds tenta sempre alcançar.

Há logo desde o princípio uma análise fulcral do processo criativo de um génio da sua arte. De certo modo, é até possível questionar se não existirão aqui contornos biográficos: será que Paul Thomas Anderson, um dos maiores do cinema atual, não será Reynolds na sua própria arte? Não será PTA também obcecado com cada linha narrativa do seu argumento, com cada plano construído, com cada mensagem subliminar (as mesmas que Reynolds esconde nos seus vestidos)? Seja autobiográfico ou não, a verdade é que a certo ponto Linha Fantasma é uma das visões mais avassaladoras do processo criativo e da forma como ele afeta aqueles que são obcecados com ele.

Mas se de início parece que o filme é algo cheio de si próprio e se poderá perder no seu próprio orgulho, pouco tempo demora para percebermos que PTA não está para nos levar onde pensamos que vamos. Porque ao fim de pouco tempo, Reynolds conhece Alma (Vicky Krieps). Alma é uma simples empregada de restaurante, desajeitada por sinal. Mas Reynolds vê logo nela algo mais. É mais uma das suas musas, ainda para mais com as medidas que vê como perfeitas.

Obviamente que Reynolds se vai apaixonar por Alma. E há algo de especial em Alma que faz com que Reynolds não se consiga livrar dela como tinha feito a todas as mulheres da sua vida. É a partir daí que o filme começa a dar voltas constantes, deixando-nos à nossa sorte para adivinhar para onde vai a seguir. É que Alma também é um espírito forte. Por isso, o seu romance com Reynolds é de dois dominadores que exigem sempre mais do outro, nunca sendo correspondidos ao ponto que desejam.

É neste momento que sentimos que o filme nos largou a mão e nunca mais vai agarrar nela. A partir daí, PTA continua a explorar os bastidores do mundo da obra enquanto desedifica este romance perigoso, dando as voltas que lhe apetece sem nunca nos alertar ou preparar para o que vem a seguir. Há tensão constante, principalmente no terceiro ato. E, saliente-se, a brilhante banda sonora de Jonny Greenwood, membro dos Radiohead, acrescenta muito ao clima do filme, sendo digna de apreciação nos seus próprios termos.

Também é impossível não apreciar o quão belo Linha Fantasma é. PTA assumiu a cinematografia do filme, resultando num dos filmes mais visualmente avassaladores do ano. A construção de planos e a fotografia de PTA, principalmente nas cenas na casa de Reynolds, são dignas de contemplação, com momentos que são de tirar a respiração.

E depois há Daniel Day-Lewis. Há (e houve até hoje) poucos atores com a capacidade de Day-Lewis, um dos grandes mestres de método do seu tempo. E o ator britânico domina totalmente o ecrã como Reynolds. O rigor de toda a interpretação é típico seu, com as expressões faciais que transmitem mais do que qualquer discurso e os gestos sempre certeiros. A acreditar que este é, de facto, o último papel do ator, há aqui uma catarse de toda a sua carreira, também em algo que pode muito bem ser um dos seus papéis mais pessoais. Há muito de Reynolds em Day-Lewis (ou de Day-Lewis em Reynolds), sendo ambos génios das suas áreas pelo rigor e obsessão com que encaram cada trabalho. Daniel Day-Lewis pode-se retirar do cinema, mas retira-se em grande forma e com uma interpretação que vai ficar para a história.

Quando os créditos começam a passar, sente-se que o que se acabou de ver foi cinema na sua forma mais completa. Belo e surpreendente, Linha Fantasma é uma obra-prima de Paul Thomas Anderson. E a ser o último filme de Daniel Day-Lewis, é a despedida perfeita para um dos melhores do nosso tempo.

Nota final: 9/10

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