Crítica: A Hora Mais Negra (Darkest Hour) – 2017

“Even though large tracts of Europe and many old and famous States have fallen or may fall into the grip of the Gestapo and all the odious apparatus of Nazi rule, we shall not flag or fail. We shall go on to the end. We shall fight in France, we shall fight on the seas and oceans, we shall fight with growing confidence and growing strength in the air, we shall defend our island, whatever the cost may be. We shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender, and if, which I do not for a moment believe, this island or a large part of it were subjugated and starving, then our Empire beyond the seas, armed and guarded by the British Fleet, would carry on the struggle, until, in God’s good time, the New World, with all its power and might, steps forth to the rescue and the liberation of the old” – Winston Churchill, 4 de junho de 1940

A Hora Mais Negra começa quando a Europa está a cair aos pés de Hitler. A Bélgica e a Holanda estão prestes a ser invadidas pelo exército alemão, e pouco falta para que a França também caia. A ameaça perante a Grande-Bertanha é iminente. Perante este cenário, Chamberlain perde o apoio no parlamento e a sua demissão está eminente. Mesmo perante as críticas dentro do partido conservador, a escolha para o seu sucessor começa a formar-se: Winston Churchill.

Churchill pega no país numa das alturas mais complicadas da história, quando tem de liderar uma nação que pode sofrer a invasão nos próximos meses. O próprio cenário interno é desolador, com o novo primeiro-ministro a ser alvo de grandes dúvidas dentro do próprio partido, principalmente perante o seu espírito de resistência face ao grande conflito que tinha caído sobre a humanidade.

É aqui que começa A Hora Mais Negra. O filme vai acompanhar apenas o primeiro mês de Churchill à frente da Inglaterra, no período em que parece que tudo está prestes a descambar. Com o passar do tempo, a invasão da França é um dado adquirido, e existe o pavor perante o futuro dos trezentos mil soldados ingleses que estão encurralados nas praias de Dunkirk. Se um acordo de paz poderia ser a forma mais fácil de sair do conflito para a maioria dos governantes, Churchill não pretende desistir assim tão facilmente.

Assim, o filme de Joe Wright não procura ser uma biografia sobre a vida toda de Churchill, mas apenas cobrir um mês decisivo na sua carreira e na história do seu país. É uma visão interessante de um homem visto como tal, nas suas fraquezas de humanidade por trás de um dos maiores líderes que o mundo já viu.

O centro de tudo isto é Gary Oldman. Dizer que o ator tem uma interpretação de gigante enquanto Winston Churchill não faria justiça àquilo que o ator consegue. Oldman transforma-se em Churchill. É algo simplesmente maravilhoso, sendo impossível encontrar o ator dentro de uma interpretação que vai ficar para a história. Oldman apanha todos os detalhes, desde a postura aos tons de voz de Churchill. O filme é seu, e ele é o maior triunfo do filme. É graças a ele que muitas das falhas do filme nos passam ao lado, porque com ele no ecrã é difícil reparar em muito mais que não o quão genial está.

Por isso, de certo modo A Hora Mais Negra é uma espécie de “The Gary Oldman Show”. É ele que faz o filme funcionar e é ele que o aguenta quando a narrativa começa a falhar. Poucas vezes houve uma interpretação a marcar tanto um filme, mas aqui estamos nós. Há também um excelente trabalho de caracterização que não pode ser ignorado, sendo ele que permite as enormes parecenças entre Oldman e Churchill.

Importante também é perceber a importante da palavra no filme. Churchill foi um dos grandes oradores da história, e o filme recria isso de forma impecável. Sempre que Oldman recita um dos discursos do primeiro-ministro, há uma tensão no ar, um sentimento de imensidão e de dedicação avassaladora, de um homem que acredita no que está a dizer. Há um momento central, em que Churchill fala pela primeira vez à nação, que é palpavelmente tenso apesar de não envolver qualquer ação. É mais uma revelação do poder de Oldman no papel.

E como referido, é graças a Oldman que o filme consegue ser mais do que um simples biopic, uma vez que cai em muitos clichés do género. Wright por vezes parece demasiado concentrado em fazer do filme um “Oscar Bait” que se torna dolorosamente óbvio, seguindo linhas narrativas e de estilo previsíveis, exploradas num sem-número de filmes com aspirações de prémios. Se não fosse Oldman, fica a dúvida de se o filme teria o impacto que tem ou se não seria um simples filme de sábado à tarde.

Mas isto não quer dizer que o filme esteja isento da parte de grandes momentos per si. Há uma cena no metro no terceiro ato que é das mais significativas do último ano, servindo até como uma espécie de mensagem para uma Inglaterra atual que atravessa  os seus próprios demónios, sobre a forma de Brexit’s e afins. Churchill surge como uma figura de esperança e de resiliência perante os tempos mais difíceis, uma lição de força e coragem que faz cada vez mais falta nos tempos que correm.

Por isso é que A Hora Mais Negra consegue ser mais do que um mero biopic. A interpretação de Oldman e a sua mensagem para uma nova geração fazem deste um filme fundamental, uma viagem a uma das figuras mais marcantes da história europeia. Pode não ser um novo clássico, mas é uma excelente peça de história. No final, fica uma mensagem de Churchill, desta vez para um novo mundo: “We shall go on to the end; We shall never surrender”

Nota final: 8/10

 

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