Crítica: Um Desastre de Artista (The Disaster Artist) – 2017

Há poucos filmes que conseguiram ganhar o estatuto que The Room alcançou. Ainda para mais filmes tão maus como The Room. O filme original de Tommy Wiseau tornou-se no exemplo por excelência do género de filmes “tão mau que é bom”, sendo talvez o pináculo desta (des)honrosa categoria. Por isso, fazia todo o sentido que mais cedo ou mais tarde Hollywood decidisse pegar no filme e fazer algo sobre ele.

É aí que nasce Um Desastre de Artista. James Franco, um admirador de The Room, decidiu “mergulhar” na história de um os filmes mais lendários da história da sétima arte e, mais concretamente, na figura estranha do seu criador, Wiseau. Para isso, recorreu a alguns dos seus amigos do costume, como o seu irmão Dave Franco e Seth Rogen, para recriar o making-off do filme de culto.

Daí que Um Desastre de Artista assente principalmente na relação entre Tommy Wiseau e Greg Sestero enquanto dois sonhadores que querem conseguir o seu lugar em Hollywood. Shakespeare é citado umas quantas vezes, e há algo na história que parece indicar que o autor inglês a poderia ter escrito: o que aqui temos é uma história trágica, que todos sabemos que vai acaba daquela maneira praticamente desde o início. Mesmo que nunca tenhamos visto The Room.

Franco prova aqui porque é que é um dos autores mais interessantes de Hollywood. Este é um trabalho de amor seu, que mais do que uma simples comédia é um trabalho de empatia por alguém que nunca recebeu (justamente ou injustamente, a decisão caberá a cada um). E isso sente-se constantemente, com Franco a honrar o material base, mas também a decidir ir mais além do que isso. Porque Um Desastre de Artista não se limita a recriar The Room. Franco tenta perceber aqui o porquÊ de alguém continuar em frente mesmo quando tudo e todos estão contra si.

De certo modo, se La La Land era para os sonhadores talentosos, então Um Desastre de Artista é para os opostos. Para aqueles que apesarem de querem chegar às estrelas não têm o talento necessário e não o querem admitir. Tudo isto surge associado a uma espécie de hino à outsider art, àqueles que trabalham e pensam fora do sistema, que arriscam mesmo sabendo que o resultado final não vai resultar.

Um aspeto importante é que não é preciso ver The Room para se apreciar Um Desastre de Artista, apesar de ser fundamental perceber o porquê deste fenómeno de culto. Na sessão a que assisti ao filme, sempre que era recriada uma cena icónica do filme original, havia uma parte da audiência que ria como poucas. vezes vi rir numa sala de cinema. Inclusivamente, frases como “You’re tearing me apart, Lisa!” eram gritadas em voz alta por membros da audiência sempre que eram ditas no filme. São estes pequenos momentos que tornam a experiência numa espécie de catarse emocional para aqueles que vêem em The Room algo mais do que um simples filme, e Franco percebe a sua importância.

Mas nada disto funcionaria se não fosse a interpretação enorme de James Franco. Ao longo do filme, Franco não é Franco: é Wiseau, em todos os maneirismo e feitios do homem. É surreal a forma como Franco se transforma no filme, não só fisicamente mas em todos os aspetos que têm a ver com Wiseau. Desde a voz que replica o estranho sotaque da Europa de leste aos olhares estranhos, Franco torna-se em Wiseau durante o filme todo. O facto de não ter sido nomeado aos Oscar de melhor ator é, mais do que um choque, um verdadeiro roubo perante aquela que pode muito bem ser a sua melhor interpretação.

Assim, Um Desastre de Artista funciona quer sejam fanáticos por The Room ou apenas tenham conhecimento do fenómeno que é. O filme de James Franco é uma comédia hilariante, com interpretações de topo e um coração no sítio certo. Talvez venha mesmo a tornar-se num filme de culto como o original que lhe serve de base.

Nota final: 8/10

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