Especiais 2017 – Os melhores filmes que (provavelmente) não viu

Ao longo dos próximos meses vou elaborar uma série de especiais de retrospectiva do ano que está prestes a terminar. Ao longo destes posts, o objetivo será explorar vários aspetos daquilo que foi feito na sétima arte ao longo dos últimos 12 meses. Para efeitos destas listas, contam-se apenas os filmes estreados em Portugal este ano, sem entrarem os filmes que já concorreram aos últimos Oscars (por isso é que não vão ouvir falar nos melhores, por exemplo, de filmes como La La Land Moonlight).

Para começar. esta série de tops, vou agora olhar para alguns dos filmes mais interessantes que passaram ao lado das audiências gerais, não conseguindo grandes resultados nas bilheteiras, quer americanas quer mundiais. Estes filmes não se encontram em nenhuma ordem específica.

A Cidade Perdida de Z

A Cidade Perdida de Z é género de filme que há umas décadas seria um sucesso garantido. O filme de James Gray é um épico daqueles que Hollywood já não faz, narrando a busca intensa de uma cidade desconhecida pelo explorador britânico Percy Fawcett. Gray apresnta uma obra visualmente gloriosa e sempre densa, acompanhando uma história que se estende por várias décadas e cobre vários eventos, sempre com uma precisão impressionante e uma beleza, quer visual quer narrativa, de tirar a respiração. É uma análise fundamental da ambição e da persistência face a circunstâncias adversas e uma análise psicológica profunda de uma personagem que não nos pede que gostemos dela, apenas que entendamos as suas convicções. Já não se fazem filmes assim, infelizmente.

O Fundador

Para todos os efeitos, O Fundador é um filme de 2016. No entanto, tendo apenas estreado na maioria do mundo em 2017, acho que posso (e podem ter a certeza de que o vou fazer) considerar como um filme de 2017. Pelo menos assim posso falar (ou escrever) sobre ele. O Fundador analisa a história por trás da evolução da McDonald até se tornar na gigante que conhecemos hoje, narrando como é que Ray Kroc se aproveitou de uma pequena hamburgueria dos irmãos McDonald para formar um império, tirando o proveito aos seus verdadeiros donos. É uma análise ao lado negro do sonho americano e àquilo que o ser humano está capaz de fazer para o alcançar. Existem aqui também perspectivas bastante curiosas sobre a marca, como a comparação dos seus arcos dourados a uma cruz no topo de uma igreja e importância de um nome. No fim de contas, é um filme que para além de entreter, consegue explicar as origens obscuras de um fenómeno mundial. Se calhar se a McDonald’s tivesse tratado O Fundador como o Facebook tratou A Rede Social o seu sucesso na bilheteira tivesse sido maior.

Sorte à Logan

Após uns anos de “reforma” do cinema, Steven Soderbergh decidiu voltar para trás das câmaras para apresentar aquilo que facilmente pode ser visto como uma versão sem glamour de Ocean’s Eleven. No entanto, esta classificação acaba por ser redutora para aquilo que Sorte à Logan é: um filme extremamente divertido e que muitas vezes se apresenta como uma lufada de ar fresco para os filmes de assaltos. Soderbergh pega aqui em vários clichés do género e vira-os do avesso, apresentando uma premissa suficientemente absurda para funcionar – dois irmãos a quem nada corre bem decidem fazer um assalto na Coca-Cola 600, uma corrida da Nascar que representa um dos eventos mais agitados do ano. Soderbergh cria personagens com quem gostamos de passar tempo e em quem acreditamos, deixando mesmo o desejo de se ver mais destes assaltantes da América rural que nos são aqui apresentados. Apesar de o filme não ter tido grande sucesso nas bilheteiras, o seu estatuto como filme de culto está assegurado e pode ser que as audiências o venham a descobrir progressivamente.

T2 Trainspotting

“Choose life”. Eram estas as palavras com que Mark “Rent Boy” Renton começava o discurso inicial de Trainspotting há 20 anos. As linhas seguintes tornaram-se quase um moto para as gerações da altura, que memorizaram cada uma das palavras deste. O filme original de Danny Boyle foi uma viagem duríssima a um mundo marcado pela dependência e pela miséria que esta trazia – a quem dela sofria e a todos à sua volta. 20 anos passados voltamos aqui. Porquê? Bem, como diz Simon (que agora raramente responde por Sick Boy), por causa da nostalgia. Afinal, “somos todos turistas no nosso próprio passado”. E existe uma certa nota de depressão ao ver este grupo novamente, porque todos eles continuam tão perdidos como estavam há 20 anos. Não por continuarem dependentes (apesar de alguns deles ainda o estarem), mas por viverem num mundo que já não conhecem, um mundo em rede que parece que se esqueceu dele. A certo ponto Renton reconhece isso mesmo, quando atualiza o seu discurso para uma nova geração, naquele que será um dos melhores momentos de qualquer filme em 2017. Trainspotting pode não estar ao nível do original, mas nunca precisou de o estar, e brilha nos seus próprios termos. Talvez daqui a 20 anos voltemos a ver estas personagens. Até lá, fica a mesma mensagem: “Choose life”.

The Meyerowitz Stories (New and Selected)

The Meyerowitz Stories (New and Selected) é o raro filme que funciona tão bem enquanto comédia como drama. O novo filme de Noah Baumbach tem o coração no sítio certo, o oferecendo uma visita a uma família disfuncional em que um reencontro traz ao de cima todos os ressentimentos e remorsos guardados. A edição é das mais impressionantes do ano, com o filme a seguir cena após cena com um ritmo impressionante, trocando risos por corações partidos em meros segundos. É um trabalho impressionante que nos apresenta vidas que tão bem conhecemos, fazendo-nos desejar que não sejam as nossas próprias. O elenco de luxo também ajuda, com principal destaque para Adam Sandler. Pode parecer mentira, mas o ator tem aqui uma interpretação maravilhosa, a melhor da sua carreira e que aproveita, para além da sua veia cómica, um talento para o drama que raramente é aproveitado. Para quem tem Netflix, façam um favor a vocês próprios e vão ver este tesouro. Podem agradecer-me depois.

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