Crítica: Um Crime no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express) – 2017

Kenneth Branagh já tinha provado que era bem versado nas adaptações Shakespearianas, quer com adaptações diretas quer com influências claras na sua obra geral. Agora decide aventurar-se pelas páginas de outra clássica britânica: Agatha Christie. Mais concretamente, decide trazer para o ecrã uma nova versão de uma das suas maiores criações, o lendário detetive Hercule Poirot, interpretado nada mais nada menos do que pelo próprio Branagh.

É curioso as saudades que já fazia um filme do género “who did it?”. Apesar de a história aqui conhecida já ser conhecida, não deixa de ser uma lufada de ar fresco ver Branagh revistar o género, pegando nos vários elementos deste tipo de filmes e acrescentando uma vybe moderna a acompanhar o tradicionalismo da obra de Agatha Christie.

A história passa-se praticamente na sua totalidade a bordo do Expresso do Oriente, onde segue Hercule Poirot, um reconhecido detetive. A viagem sofre uma reviravolta quando um dos passageiros, Edward Ratchett, é assassinado. Todos se tornam suspeitos num caso que não tem nada de fácil, e tudo se agrava quando o comboio fica preso numa tempestade. Cabe a partir daí a Poirot tentar desenrolar um novilho de mistérios em que por cada descoberta do detetive surgem mais duas perguntas.

Apesar de esta não ser a primeira adaptação de Um Crime no Expresso do Oriente, Branagh assegura-se de que é relevante nos seus próprios termos. Tal como os trailers tinham indicado, o filme é modernizado em termos de apresentação, com um aspeto sensacional em termos visuais. Branagh sempre foi um mestre da criação de cenas, e isso torna-se aqui ainda mais evidente: há vários momentos em que o realizador utiliza planos tão apertados em termos espaciais que até custa acreditar como é que foram filmados.

Por outro lado, o elenco de luxo aqui presente, numa espécie de “who’s who?” de identificação de atores, ajuda a criar um envolvimento ainda maior com o argumento. Atores como Depp, Judi Dench, Josh Gad e Daisy Ridley estão totalmente arrasadores, entregando interpretações tão fluidas e maravilhosas que fazem com que o filme mantenha o seu suspense até ao fim. São todos tão credíveis que conseguem assegurar que todas as personagens parecem culpadas até à revelação final, que é o que se pede neste género.

Branagh também está sublime como Poirot. Pode-se acusar o realizador de algum egocentrismo por se contratar para o papel principal, mas a verdade é que consegue corresponder às expetativas. Branagh é um ator bastante versátil (basta ver a sua interpretação maravilhosamente low key em Dunkirk), e aqui faz com que o detetive seja seu, distanciando-se das encarnações anteriores da personagem. Estando já confirmada uma sequela, um dos maiores incentivos é a possibilidade de voltar a ver o ator deixar crescer o bigode para interpretar Poirot.

Em termos técnicos, o filme é também maravilhoso. Devido aos já referidos planos apertados utilizados, existe frequentemente uma sensação de claustrofobia, particularmente nos momentos em que estão várias personagens em cena e parece que tudo aquilo pode “explodir”. A recriação de cenários é também encantadora e extremamente detalhada. O facto de o filme ser visualmente fantástico é também resultado de Branagh ter optado por filmar o filme em 65mm (a influência de Nolan a sentir-se?), o que se sente mesmo em ecrãs que não estão preparados para o formato.

É claro que nem tudo corre bem. O argumento arrasta-se em certos momentos, principalmente no segundo ato, e existe alguma falta de tenacidade ocasionalmente. Por outro lado, há aqui outro problema que se sente ocasionalmente no cinema de Branagh: o facto de este por vezes estrutura certos momentos como se de peças de teatro se tratassem. É algo que pode ser agradável, mas este filme não o pedia e por vezes sofre com isso.

No entanto, estes problemas não estragam o facto de Um Crime no Expresso do Oriente ser uma experiência bastante agradável. Branagh recria Agatha Christie com excelência, entregando grande entretenimento num estilo que já não se vê com frequência atualmente, num filme que vai agradar tanto aqueles que já conheciam a obra original como aqueles que têm aqui o seu primeiro contacto com a história.

Nota final: 7,5/10

Dedicada à Beatriz, com um mês de atraso.

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