Crítica: Três Cartazes à Beira da Estrada (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri) – 2017

(Nota: A crítica deste filme foi elaborada após a exibição do filme no Lisbon and Estoril Film Festival. Três Cartazes à Beira da Estrada ainda não tem data de estreia agendada em Portugal).

Que maravilha é Três Cartazes à Beira da Estrada. É uma montanha russa de emoções do primeiro ao último frame, uma ópera trágica sobre pessoas que passaram, diretamente ou indirectamente, por uma tragédia, mas que são obrigadas a continuar depois dela, apenas porque a vida assim o quer (ou impõe?). É uma análise explosiva à raiva, à incompreensão e à compaixão, onde todos os sentimentos andam de mãos dadas de uma forma que era difícil de conceber ser possível.

O filme começa com uma sucessão dos três cartazes do título, imponentes numa estrada esquecida pelo tempo, onde ninguém passa a não ser que se tenha perdido. Eventualmente, um carro acaba por aparecer no ecrã. Dentro dele segue Mildred Hayeds (Frances McDormanda), que imediatamente percebemos que não está ali ocasionalmente. Logo de seguida recebemos a confirmação: Mildred tem intenção de alugar aqueles cartazes. E pretende colocar uma frase em cada um deles: “Violada enquanto morria”, “E ainda não há detenções?”, “Como é que é possível, Chief Willoughby?”.

Com o passar do filme, percebemos o porquê destas frases e da sua agressividade. A filha de Mildred foi assassinada violentamente. Como qualquer mãe numa situação destas, Mildred não se conforma com a ideia de que o culpado ainda esteja à solta. Daí que estes cartazes não sejam diretamente direcionados ao chefe da polícia Bill Willoughby (Woody Harrelson), mas sim a todos aqueles que falharam (talvez todo um sistema, ou será que fomos todos nós?). Mildred tem noção disso: apenas acha que o nome de Willoughby vai chamar mais atenções.

O problema é que Willoughby também está a passar pela sua própria tragédia pessoal. Foi-lhe diagnosticado cancro e está na fase final. Tem perfeita noção de que lhe sobram meses de vida. E o pior de tudo é que vai deixar uma esposa e duas filhas bastante jovens. Daí que toda a cidade se junte na compaixão por Willoughby, nomeadamente um dos polícias que está a seu comando, Jason Dixon (Sam Rockwell), um polícia racista com um passado de complicado, acusado de já ter torturado negros durante inquéritos policiais.

Todas estas personagens têm os seus demónios. Todos eles carregam o seu próprio calvário, exprimindo-o de uma forma diferente. São pessoas como nós, mas que foram colocados em situações pelas quais ninguém merece passar. Por isso é normal que nem sempre sabem como agir a seguir ou se quer se faz sentido continuar. A vida tem de continuar durante e depois da tragédia, mas de que maneira? E onde é que se vai buscar a força para o fazer?

Pode parecer surpreendente, mas Três Cartazes é também um filme hilariante. Desde os primeiros minutos que se percebe isso. Dado o currículo do seu realizador/ argumentista, Martin McDonagh, talvez não fosse de surpreender que o humor negro fosse estar presente. No entanto, não era de esperar que fosse tão constante, tão bem construído e tão hilariante. E o resultado disso é da genialidade do argumento de McDonagh. O realizador enche o filme de monólogos construídos genialmente, de uma forma que é muito rara no cinema, e esses monólogos geralmente acabam com pinche-lines que nos apanham a sério, tanto nos fazendo rir como nos destruindo por dentro (o filme tem a melhor utilização da expressão “I know” desde o final de “O Império Contra-Ataca”, num discurso que merece ficar na história).

Não se fique, no entanto, a pensar que o filme é sempre cómico. Porque quando quer ser comovente também o consegue ser. E de que maneira. No final do filme, posso assegurar que haviam vários olhos molhados na sala. Não porque o filme seja melodramático ou puxe pelas lágrimas: apenas porque todo ele é carregado de emoções. E no final (já lá vamos) todas elas nos atingem em simultâneo.

A história vai-se desenvolvendo d uma forma assumidaâmnte pouco convencional, com várias reviravoltas extremamente imprevisíveis. No entanto, nunca dá um passo em falso, acertando sempre nas notas certas no momento certo. Isto permite que o filme seja realmente cativante, nunca nos largando por um segundo que seja – apesar de nunca nos querer dar a mão. Nunca sabemos o que lá vem a seguir. Num momento podemos estar a rir a sério, e no seguinte estarmos emocionalmente destroçados. Se isto não é mestria na construção de um argumento, então não sei o que é.

Ao longo do filme, as várias questões que nos surgem levantam sempre uma questão: por pior que seja o comportamento de uma dada personagem, será que o podemos julgar? Afinal, como é que podemos questionar as motivações daqueles a quem a vida se encarregou de deixar o mundo do avesso? Nunca pensamos que possamos ser estas pessoas, mas e se o fôssemos?

E é por isso que há uma enorme compaixão do filme por todos os seus protagonistas. É raro o filme que percebe tão bem as suas personagens como Três Cartazes. E. no fim do filme, também nós a conhecemos e nos afeiçoámos a elas. Mesmo àquelas que no início pareciam ser execráveis. É um excelente trabalho de construção de personagens, que é principalmente possibilitado pelo excelente trabalho do elenco. Principalmente Frances McDormand.

McDormand consegue uma interpretação que vai ficar para a história. Desde os primeiros minutos que consegue ser totalmente arrasadora. Pode ser só com o olhar ou com a postura, ou então com a forma como diz as suas falas. É completamente arrasadora, gigante mesmos. Poucas vezes conseguimos sentir tanta dor e tanta determinação só de olhar para uma atriz. McDormand na maior parte das vezes nem precisa de falar para se expressar. Basta a expressão facial. Se houver justiça, o Oscar não lhe escapa.

E depois há aquele final. Não o vou dizer para não estragar nada. Mas é a conclusão perfeita. Uma catarse emocional que trás tudo o que sentimos ao longo do filme numa única cena. Não vai ser consensual. Tal como o final de “La La Land” no ano passado está destinado a ser detestado por muitos. Mas é, assumidamente, a conclusão perfeita, o momento que o argumento esteve sempre a preparar. É possível até encontrar uma metáfora para o mundo real em que vivemos atualmente – mas porque é que reduziríamos cena tão bela a uma comparação tão fútil?

Há poucos filmes tão poderosos como Três Cartazes à Beira da Estrada. Onde há tanta paixão e tanta raiva misturada, e tanto sentimento para afetar o espetador. Às vezes é hilariante, às vezes é comovente – mas a vida não é assim também? Talvez seja a resposta para os nossos tempos, talvez não. A verdade é que é um grande filme que não nos abandona tão cedo. Mas que maravilha é Três Cartazes à Beira da Estrada.

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