Crítica: Blade Runner 2049 – 2017

Muito poucas vezes ao longo da história moderna um grande orçamento foi feito para criar arte de elevado valor. Fundir as fundações do cinema mainstream com a poesia visual é algo que para além de arriscado é sempre complicado, face a um sistema de estúdios cada vez mais interessado em sequelas e conceitos gastos e a um público que parece preferir essa mesma fórmula. No início de Blade Runner 2049, uma personagem afirma “you’ve never seen a mircale” – pois bem, quem assiste ao filme está prestes a ver um.

Em 1982, o primeiro Blade Runner revolucionou aquilo que a ficção científica podia ser. Foi uma revelação como muito poucos filmes do género conseguiram fazer até hoje: talvez apenas Metropolis, 2001: A Odisseia no Espaço e Star Wars tenham conseguido o mesmo. A obra-prima de Ridley Scott assumiu-se como visionária em termos visuais, criando  um dos mundos mais brilhantes alguma vez postos no grande ecrã. Mas era também um filme perspicaz, que levantava sérias questões filosóficas a que obrigava o espetador a responder (afinal, será que os andróides sonham com ovelhas elétricas?). “Um pesadelo romântico”, chamou-lhe Ryan Gosling, protagonista de 2049,. Talvez seja a designação perfeita.

Falar de Blade Runner 2049 é sempre perigoso. O filme é uma caixa de surpresas que merece ser aberta por cada espetador. É uma viagem alucinante que deve ser vista com o mínimo conhecimento possível daquilo que vai oferecer. Por isso não vou apresentar qualquer spoiler nesta análise – deixo as surpresas todas serem descobertas por cada um. Em termos básicos, a história passa-se 30 anos após o primeiro filme, e segue K (Gosling), um Blade Runner, ou seja, um caçador de replicantes de modelos antigos, que trabalha para a LAPD. A descoberta de um segredo antigo leva K numa viagem em busca de algo que é muito maior do que ele alguma vez poderia pensar, e que ameaça transformar toda a realidade que este conhece.

Blade Runner 2049 acaba por ser, muito à semelhança do seu antecessor, um filme de detetives neo-noir. Há um mistério na base do filme que serve para assegurar que a narrativa anda sempre em frente, apesar de muitas vezes ser apenas um pretexto para grandes exposições sobre os mais variados temas. No entanto, 2049 supera todas as convenções nesse domínio, sendo que quem vem à procura de um policial vai sair satisfeito com aquilo que aqui lhe é dado.

No entanto, considerar o filme apenas um noir de detetives é redundante. Blade Runner 2049 é, acima de tudo, sobre K. Todo o filme é sobre ele, mesmo quando não o parece ser à primeira vista. Esta é uma viagem introspetiva a uma personagem fascinante, sendo que é a jornada de auto-descoberta de K que Dennis Villeneuve apresenta aqui acima de tudo, e consegue fazê-lo com uma mestria excecional. Pode parecer um exagero dizer uma coisa destas, mas é bem possível que K seja uma personagem melhor do que Deckard no primeiro filme.

E nada disso seria possível se não fosse o tour de force que é a interpretação de Ryan Gosling. Não é segredo para ninguém que Gosling é um dos atores mais talentosos da sua geração, mas aquilo que ele aqui faz é algo simplesmente magnífico, até para ele. Villeneuve soube aproveitar o ar misterioso de Gosling e naquele charme natural que Chazelle tão bem aproveitou em “La La Land” e levá-los a novos níveis. É uma interpretação que apesar de para os espetadores mais desatentos poderá parecer low-key, mas é na verdade dotada de uma carga emocional enorme, que só um ator como Gosling conseguiria assegurar. É nele que assentam muitos dos méritos do filme, conseguindo tornar K numa das personagens mais fascinantes do cinema deste ano.

Mas não é só Gosling que se esmera no filme. Ana de Armas também está magnífica como Joi, uma inteligência artificial que assume um papel bastante importante na vida de K. A atriz cubana tem aquela que é, possivelmente, a personagem mais original do filme e sobre a qual não quero revelar muito para não estragar surpresas. E é dela e de Gosling o melhor momento do filme, uma cena tão bela que me arrisco a dizer desde já que será, muito provavelmente, a melhor cena do anos. Chegado aqui, está na hora de falar daqueles que muitos queriam saber: Harrison Ford como Deckard.

Ford volta a encarar uma das suas personagens lendárias, depois de ter voltado a assumir os papéis de Indiana Jones em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal e de Han Solo em Star Wars VII: O Despertar da Força. E é aqui que brilha mais alto. Se essas duas interpretações foram, em parte, marcadas principalmente pela nostalgia de o voltar  ver a encarar personagens que marcaram a sua carreira e o tornaram em ícones da cultura pop, o seu papel em 2049 leva-o muito mais longe. É um papel que é bastante difícil (talvez mais do que no primeiro), em que Ford é obrigado a visitar emoções a que não foi levado muitas vezes na sua carreira – daí que esta seja uma das melhores interpretações até hoje. Se houver justiça, Ford será, pelo menos, nomeado ao Oscar.

Visualmente, Blade Runner 2049 é dos filmes mais espantosos de sempre. É óbvio que havia aqui uma grande responsabilidade, visto que o filme original era e continua a ser um dos filmes mais inspirados do género, mas aquilo que 2049 consegue fazer é revolucionário. Tal como Dunkirk, é um evento que muda as perceções daquilo que se pode fazer em filme e que merece ser visto no maior ecrã possível. Tendo-o visto em IMAX 3D, posso assegurar que vi poucos filmes que igualassem a espetacularidade aqui mostrada.

 

Este é um mundo vivo, com uma palete de cores lindíssima e uma construção do espaço magnífica. Olhando para o filme, percebemos que é o mesmo mundo do filme de 1982, mas ainda mais magnífico, mais expandido. E grande parte do mérito merece ir para a cinematografia de Roger Deakins. É Deakins que captura este filme com uma beleza assustadora e uma sensibilidade artística excecional, mostrando que o cinema é, de facto, uma arte visual. Deakins já foi nomeado 13 vezes aos Oscars e nunca venceu. Este ano vai garantir a 14ª nomeação, e apesar de a concorrência de Dunkirk não poder ser ignorada, deve ser desta que consegue a tão merecida estatueta dourada.

Dennis Villeneuve prova aqui que é, mais uma vez, um dos realizadores com mais carácter a trabalhar atualmente. Se “O Primeiro Encontro” já fora uma excelente demonstração dos seus dotes, aqui o realizador vai ainda mais longe, mostrando que consegue construir cinema de autor com um orçamento de blockbuster. Poucos realizadores conseguiriam fazer algo assim, mas Villeneuve nunca se intimida perante o legado do original e cria algo que é totalmente seu. Nunca copia, mas homenageia aquilo que Scott lhe deixou, enquanto expande o universo em direções totalmente novas (e muitas vezes inesperadas).

E termos de ideias, Blade Runner 2049 é peosia visual. O filme é rico em temas difíceis e perguntas que também nunca são fáceis, tal como o filme de 1982 o fora. Há aqui mensagens fortes sobre temas como a memória, a solidão, a paixão e o valor de ser humano. É quase inacreditável que um filme mainstream consiga abordar temas tão complexos desta maneira, mas 2049 não é um filme qualquer. As suas quase três horas de duração são povoadas por ideias enormes, e o filme sabe quando abrandar para as apreciar. Para além disso, quase nenhuma resposta é dada facilmente e é precisa atenção e reflexão para se perceber tudo aquilo que está em jogo.

Assim, Blade Runner 2049 é uma experiência singular. Visualemente maravilhoso, é também um épico romântico e trágico, que consegue elevar a fasquia ao fundir cinema comercial com arte. Citando mais uma vez o próprio filme, é um”milagre” – poesia visual no seu estado mais puro e magia cinematográfica como tão poucas vezes se vê hoje em dia.

Nota final: 10/10

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: