Crítica: Barry Seal: Traficante Americano (American Made) – 2017

Antes de mais, “Barry Seal: Traficante Americano” ganha a distinção de ser uma das piores traduções de um título para português este ano, retirando a mestria ao original, “American Made”. Não há título melhor do que esse, visto que o filme é uma análise fulcral ao sonho americano – à busca desse sonho e a como o próprio sonho construiu um homem.

A certo ponto no trailer de “Barry Seal”, Tom Cruise, no papel da personagem do título, diz uma frase que apesar de não estar no produto final expressa perfeitamente aquilo que se sente ao vê-lo: “some of this shit really happened”. Porque sim, estamos perante uma história com contornos tão absurdos e surreais que custa a acreditar que tudo isto seja possível – mas a verdade é que é, e Doug Liman (o homem por trás dos excelentes “No Limite do Amanhã” e “Identidade Desconhecida) sabe apresentar os eventos sempre com um certo “realismo mágico”.

A história de Barry Seal não é totalmente desconhecida. Este já fora uma personagem secundária na primeira temporada de “Narcos”, que cobrira de uma forma algo resumida os eventos que nos são aqui apresentados. Seal começa o filme como um piloto frustrado, que trabalha para a TWA e vai fazendo uns pequenos trabalhos de contrabando. Eventualmente, recebe uma proposta da CIA para fazer reconhecimento fotográfico de várias atividades ligadas à União Soviética em países da América Latina, algo que este aceita, provavelmente não só pelo dinheiro como também pelo espírito de aventura.

Seal é constantemente apresentado assim: um homem viciado em adrenalina, que muitas parece apenas pensar nos preliminares depois de já ter feito as ações. De certo modo, há aqui parecenças óbvias com o Maverick de Cruise em “Top Gun”, o que talvez explique o porquê de o ator estar tão confortável num papel que é dos melhores que teve em anos, naquele que é também o seu melhor filme em anos (quase – realço o quase – que nos faz esquecer o desastre que foi “A Múmia”).

Pouco tempo depois de começar a trabalhar para a CIA, Seal percebe que é possível lucrar ainda mais: num trabalho na Colômbia recebe o convite de Pablo Escobar e de Jorge Ochoa para começar a traficar cocaína para os EUA, recebendo uma quantia elevada por cada quilo transportado. E é a partir daí, como diz o próprio protagonista, que as coisas começam a ficar realmente loucas, com Seal a trabalhar em simultâneo para a CIA, para o cartel de Meddelín de Escobar e para a DEA.

A partir desse momento, todo o filme começa a encaixar em si, ganhando um ritmo frenético e que nunca deixa de divertir, mostrando a ascenção de Seal, um homem que é, de certo modo, constuído pelo sonho americano – é a América da Guerra Fria, na sua confusão, ambição e desorganização, que permite que um homem como Barry Seal chegue onde chegou. Daí que o título “American Made ” seja perfeito para aquilo que nos é mostrado – Seal foi construído pela América da sua época.

Também ajuda ao funcionamento do filme que muitos destes factos sejam desconhecidos. É isso que permite que esta história, que tem bastante de imprevisível, consiga surpreender constantemente. Sem querer estragar as reviravoltas da história para quem não as conhece, o argumento consegue ter reviravoltas e suspense suficientes para aguentar interesse ao longo das suas quase duas horas de duração, sem que estas nunca se tornem cansativas.

Para além disso, é a realização de Liman que torna este num dos filmes mais divertidos do ano, dando-lhe um ritmo alucinante (apesar de vacilar ao longo do primeiro ato do filme) enquanto apresenta uma personagem que, apesar do seu comportamento assumidamente eticamente dúbio, é sempre cativante e carismática, muito em parte devido ao esforço de Cruise. Não há como enganar: este é o filme de Cruise, que nunca desaponta e parece divertir-se à grande com aquilo que aqui lhe é dado aqui para fazer.

É claro que também se pode argumentar que o filme por vezes não critica o comportamento do seu protagonista, sendo que apesar de eu não concordar inteiramente com essa perspectiva entendo quem a defende. Uma crítica mais forte poderá ser feita ao primeiro ato, como já referi, que demora algum tempo até acertar no ritmo certo – se bem que quando chega lá praticamente deixa de vacilar.

“Barry Seal: Traficante Americano” é uma análise interessante à vida de uma figura que teve um impacto fortíssimo na história e que poucos conheciam. A realização segura de Liman e a interpretação de Cruise conseguem elevar o filme para além de muitos biopics e existe verdadeiro divertimento para se encontrar aqui. É bom entretenimento e bom cinema.

Nota final: 8/10

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