“War Machine” e o futuro dos filmes originais da Netflix

Este artigo já devia ter sido lançado há algum tempo, mas devido a terem surgido outros mais importantes pelo caminho só agora é que o publico, até porque se voltou a tornar relevante uma análise ao modelo dos filmes originais da Netflix face às críticas recentes de Christopher Nolan quanto à companhia de streaming.

Foi lançado no final de maio o primeiro filme de grande ambição da Netflix: “War Machine”, de David Michôd (“Animal Kingdom”). Com um orçamento de cerca de 50 milhões de dólares, foi a primeira grande aposta da gigante de streaming em oferecer filmes de qualidade, com valores de produção capazes de rivalizar com os dos grandes estúdios. É também o assumir da Netflix como a casa para os projetos em que esses mesmos grandes estúdios já não investem, nomeadamente dramas com grandes estrelas claramente direcionados a um público mais adulto.

No entanto, esta viagem não podia ter começado de pior forma, porque “War Machine” é um péssimo filme. Consegue ser tão terrível que desde já tenho as minhas duvidas de que vá ver um filme pior em 2017. Em primeiro lugar, não percebo como é que alguém lhe pode chamar comédia, visto que as tentativas de humor são tão más que até doem. Para além disso, não acontece praticamente nada ao longo do filme: o argumento, que acompanha o general Glen McMahon no seu destacamento para comandar a guerra no Iraque, não parece ter nada a dizer sobre o tema.

Assim, são basicamente duas horas de personagens a conversar dentro de salas, e apesar de alguns diálogos até serem interessantes, a maioria é pura e simplesmente aborrecida. Quando o filme acaba, parece que não avançámos nada desde o ponto de partida. Para além disso, todo o elenco é totalmente desaproveitado, e Brad Pitt não tem nada para fazer, utilizando até um sotaque tão forçado que se torna cansativo ao fim de poucos minutos, naquela que é a sua pior interpretação em anos (basta ver a sua capacidade em filmes como “Sacanas sem lei”, “Fúria” ou “Aliados” – curiosamente, todos filmes de guerra). No final, caba por parecer que nunca estamos perante um filme a sério, mas sim perante um telefilme ou algo do género.

Por isso, é um falhanço total, um filme que não serve qualquer propósito. E o que é que isto representa para o futuro dos filmes originais da Netflix?

Bem, em primeiro lugar existem aqui algumas lições a ser retiradas. Desde logo, o estúdio tem de ter mais cautela com o orçamento que atribiu a cada filme – os 50 milhões aqui gastos não se vêem em lado nenhum, e se o filme tivesse sido lançado em sala era quase um flop garantido com um valor tão elevado. Por outro lado, é a prova de que o estúdio tem de ter um controlo mais apertado sobre os seus projetos. É louvável que exista preocupação em dar liberdade criativa, mas também tem de haver uma certa pressão, ou então o resultado aqui verificado pode repetir-se.

Em segundo lugar, parece-me que isto pode ser apenas um percalço, visto que os projetos futuros parecem muito mais prometedores. Entre outros, destaca-se desde já “The Irishman”, um projeto de Scorsese que vai ver a luz do dia no serviço de streaming. É essa a grande importância da Netflix na produção cinematográfica, o facto de investir em projetos em que mais ninguém investe. Existe a possibilidade entusiasmante de vermos filmes que nunca iríamos ver se não fosse o investimento da Netflix, e isso é de aplaudir. Também se verifica que a gigante vai distribuir filmes com um grande potencial, como é o caso de “The Meyerowitz Stories”, a lançar já este ano e que parece ser um candidato à temporada de prémios que aí vem.

Por isso, “War Machine” foi um péssimo pontapé de saída para a Netlifx. No entanto, isso não significa que o futuro da empresa na produção cinematográfica tenha de ser todo assim. Por agora, vamos esperar para ver onde é que isto vai dar, tendo também em atenção se a Netflix vai continuar a ignorar totalmente a projeção dos seus filmes em salas de cinema, mesmo quando eles têm estas dimensões.

 

 

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