Crítica: Transformers: O Último Cavaleiro (Transformers: The Last Knight) – 2017

Vamos começar por tirar isto do caminho: “O Último Cavaleiro” é o pior filme da saga até agora. Pela primeira vez, sinto que perdi realmente tempo a ver um filme destes. E isto é algo irónico, visto que Bay e companhia tentam retirar vários aspetos criticados nos outros filmes, mas com isso acabam também por mexer naquilo em que não deviam.

Ver um filme de “Transformers” é um exercício curioso. Por um lado, nunca entro na sala à espera de ver uma história coesa ou um argumento que não pudesse ser escrito por uma criança de 12 anos. Por outro lado, sei que em termos de esplendor visual o preço do bilhete vai valer a pena, porque, sejamos honestos, ainda há poucos filmes que consigam oferecer a magnitude visual daquilo que estes filmes apresentam. No entanto, “O Último Cavaleiro” falha em ambos os aspetos, resultando num filme que quase nunca funciona.

Quando o filme começa, Optimus Prime abandonou a Terra em busca de Cybetron e dos seus criadores, sendo que quando lá chega é convertido para destruir a Terra, que supostamente está a destruir Cybertron. Entretanto, o mundo continua a ser invadido por novos Transformers, o que leva os governos a adotarem forças especiais para os exterminarem (o que vai gerar vários problemas ao nível de lógica, mas nem vamos por aí). No meio disto tudo também está Cade Yeager (Mark Wallberg), que após os eventos do último filme se dedicou a proteger os transformers, e que vai arranjar companhia nas duas protagonistas de serviço, Izabella, uma jovem bastante inteligente e que partilha o objetivo de Cade (interpretada pela jovem Isabela Moner) e Vivian (Laura Haddock), uma professora universitária que poderá ser fundamental para o futuro da humanidade.

Grande problema: o argumento não faz sentido nenhum. Eu sei, os outros muitas vezes também não faziam, mas desta vez tem mesmo problemas gravíssimos. Para além de estar repleto de falhas lógicas , por vezes nem é possível perceber-se o que é que está a acontecer! Bay parece que quer enfiar todas as suas ideias no filme, não se preocupando minimamente com a coerência daquilo que está a fazer. Por exemplo, Merlin (sim, o feiticeiro da lenda do Rei Artur, que aqui é um bêbedo) está enterrado debaixo de água sem qualquer explicação. E como é que Bumblebee combateu na segunda guerra munidal e ninguém sabe disso? E como é que o governo americano aceita libertar alguns dos Decepticons mais perigosos do mundo a troco da vida de uns poucos agentes da CIA? E porque é que as forças militares estão mais preocupadas em destruir Cade e os Autobots do que com os Decepticons que eles próprios deixaram fugir e ameaçam destruir a terra? E porque é que a vilã do filme se preocupa em raptar e converter Optimus Prime num vilão se depois só o usa no fim do seu plano, quando tudo já está a dar para o torto? E porque é que Megatron e amigos desistem de procurar Cade (que tem um elemento fundaental para eles) após este os conseguir derrotar uma vez?

Sim, eu sei que não devemos procurar lógica num destes filmes, mas neste caso é impossível. A estupidez é tanta que ultrapassa o aceitável, e só prova que Bay não tem qualquer noção de como construir um filme. É que muitas vezes é impossível perceber o que raio está a acontecer e porque raio é que isso está a acontecer. O filme não respetia minimamente a inteligência do espetador, e o caos do seu argumento parece o resultado de algo que uma criança de 4 ou 5 anos faria numa brincadeira com amigos.

Por outro lado, o filme nunca aproveita os seus poucos elementos vantajosos. Em primeiro lugar, Izabella, que é a personagem mais interessante do filme, é descartada ao fim de pouco mais de 45 minutos – o filme pura e simplesmente esquece-se dela, e só a volta a trazer no terceiro ato. Depois, Anthony Hopkins, que é sem dúvida o melhor ator que aqui encontramos, parece divertir-se com o pouco que tem para fazer, o que é de louvar, pois o seu divertimento é dos poucos elementos positivos do filme, mas também acentua a falta de visão de Bay, que não faz nada com a sua personagem. Esta basicamente está lá para fazer aquilo que faz nos trailers- explicar o argumento e entregar algumas one-lines que tentam ficar no ouvido (e o filme tem um excesso delas, sendo que a maioria não funciona).

Depois, o filme tenta, de facto, ultrapassar algumas das críticas que eram feitas aos filmes anteriores. Nisto destaca-se a sua preocupação com o racismo que tanto caracterizou o passado da saga, com algumas frases que referem mesmo essa realidade (admito que me ri com elas – têm piada genuína! Parabéns!). No entanto, alguns dos piores aspetos da saga são ainda piores aqui, nomeadamente ao nível da sexualização das personagens femininas. Bay desta vez vai ao ponto de até sexualizar uma adolescente (Izabella) e Vivian é constantenemente utilizada de uma forma que tão banal que se torna nojenta (as personagens masculinas chegam a dizer que esta parece uma stripper, e pela sua caracterização não andam muito longe da verdade infelizmente).

Depois de tudo isto, vamos àquilo que podia redimir o filme: o espetáculo visual. E até aqui há críticas a apontar. Desde logo, houve algo que me enfureceu ao longo de todo o filme. Vi o filme numa sessão 2D, e este muda constantemente de aspect ratio, ou seja, de tamanho de imagem no ecrã. É óbvio que isto tem a ver com o facto de o filme ter sido filmado em IMAX, mas numa sessão normal só resulta em desconcentração. É difícil acompanhar diálogos em que durante dois minutos a imagem muda de tamanho umas 8 vezes (não estou a exagerar). O que parece é que Bay aponta para uma veia artística e falha de forma catastrófica, visto que muita da escala do filme é perdida por este motivo. Isto podia resultar se o realizador tivesse alguma noção de como o fazer, e tivesse a técnica necessário para que as transições fossem suaves, mas claramente não são (se querem ver como é que isto de faz bem, vejam “O Grande Hotel Budapeste” do mestre Wes Anderson).

Mas mesmo tirando isso, o filme fica muito aquém dos outros nas cenas de ação. O terceiro ato parece tirado de um filme da Marvel e não dos “Transformers”, contendo muita pouca ação entre robôs, e tudo aquilo que se passa é demasiado confuso visulamente para se acompanhar. É lamentável mas é verdade: “O Último Cavaleiro” falha naquilo que tinha marcado o passado da saga, e com isso falha em todos os domínios. Só uns poucos minutos é que são verdadeiramente gloriosos, e são os que são constituídos pela luta entre Optimus Prime e Bumblebee. De resto, já foi tudo visto.

É triste mas é verdade. Com “O Último Cavaleiro”, a saga bateu no fundo, tornando-se num clihé de si própia. Há muito pouco de positivo no filme que justifique o terrível argumento, sendo que até visualmente deixa a desejar. Se os outros filmes ainda conseguiam ter o seu encanto, desta vez não há aqui nenhum. E se realmente for a despedida de Michael Bay, então que seja. Bay só arruinou ainda mais a sua saga.

Nota final: 2/10

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