Crítica: Foge (Get out) – 2017

Jordan Peele, realizador de “Foge”, é mais conhecido pela generalidade do público por ser membro da dupla de comédia Key e Peele. Isso torna logo curioso o facto de este seu primeiro projeto de realização ser um filme de terror – ou então não. Contrariamente ao que geralmente se considera, a comédia e o terror não podiam estar mais próximos: são ambos géneros que vivem de causarem efeitos imediatos em quem os vê, e enganar o cérebro para este sentir sensações (humor ou susto) instantâneas. São, por isso, dois géneros que vivem bastante do timing e da perspicácia.

O que Peele mostra aqui é que essa proximidade entre comédia e terror é realmente verdadeira, visto que o realizador prova que para além do comediante que é, é também um novo génio do cinema terror. Pode não reinventar totalmente o género, mas anda lá tão perto que é admirável, sendo uma das vozes mais originais que o cinema nos apresentou nos últimos anos em qualquer género.

O paradoxo é que “Foge” só é um filme de terror na sua aparência. Sim, consegue ser genuinamente assustador, mas chamar-lhe um filme de terror é redundante –  é principalmente um thriller social com uma perspicácia rara nos tempos modernos, que aponta a um alvo complicado  (a questão social) e acerta com mestria. É o facto de ter essa inteligência toda que torna o seu fenómeno de bilheteira ainda mais importante, visto que estamos perante uma obra de elevado valor artístico que facilmente podia ter sido tratada como apenas um indie ou art house movie, mas devido ao esforço da Blumhouse se tornou num evento mainstream.

Em termos de argumento, o filme apresenta uma premissa relativamente simples: Chris, um jovem afro-americano, viaja com a sua namorada branca até à casa dos pais desta, onde vai descobrir o inferno na terra. Tudo isto parece bastante cliché para o género, e Peele tem a perfeita noção disso, visto que de seguida desconstrói totalmente a fórmula para nos surpreender a cada viragem na história. O filme tão depressa nos dá a mão como a larga, o que resulta num ambiente de suspense constante, visto que nunca sabemos o que vai acontecer a seguir – e isso é simplesmente maravilhoso e aterrorizador.

Mas o que interessa principalmente é o contexto de tudo isto, e é aí que “Foge” mais arrisca. Com a questão racial a criar ainda grandes controversas, Peele apresenta uma visão única sobre o tema, com uma crítica feroz e constante ao pânico de quem ainda não conseguiu a integração que deseja numa sociedade que teima em manter-se separada como a americana. “Foge” é um espelho duro de certas realidades que todos nós insistimos em ignorar, algo que muitas vezes nem os dramas têm a coragem de abordar e que é tão assustador que Peele consegue criar um filme de terror à sua volta.

Em termos de sustos e violência, o filme aposta principalmente no suspense. A partir do momento em que percebemos que a visita de Chris não é tão pacífica como aparentava, “Foge” passa a ter sempre um ambiente claustrofóbico, muito por culpa de tudo o que acontece ser diferente daquilo a que estamos habituados. Peele vai buscar a dose de inspiração certa aos clássicos e adiciona o seu toque próprio (mais uma vez, o timing certeiro de comediante a surtir efeitos) para criar algo completamente único, mesmo no campo do horror puro, sendo que o realizador nunca decide ir pela via mais fácil para assustar.

Jordan Peele aparenta desde já ser uma das vozes mais interessantes a emergir no cinema, com um estilo próprio e apurado que é raro encontrarmos num primeiro filme. É notável a sua aposta em cores que contrastam constantemente em planos desconcertantes, que ora fecham e abrem consoante o objetivo da cena. É tudo fruto de uma maturidade artística rara. Peele consegue, graças a essa sua visão única, avançar com o género em direções totalmente novas, numa revolução tão inesperada como desejada.

Por isso, “Foge” é uma obra que vai funcionar como referência obrigatória para o futuro do género. A sua desconstrução de tudo aquilo que já se fez no nos filmes de terror, juntamente com a sua mordaz crítica social (que faz dele um thriller social) resulta num novo clássico que o tempo provavelmente vai colocar lado a lado com os outros gigantes do género. Depois disto, fico curioso para o que quer que seja que Jordan Peele vai fazer a seguir.

Nota final: 9/10

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