Crítica: Velocidade Furiosa 8 (The Fate of the Furious) – 2017

Ser maior não significa ser melhor. Esta é uma lição que “Velocidade Furiosa 8” parece não perceber. Tudo aqui é exagerado, num espírito de ultrapassar o que a saga fez até agora, e resultando num filme que fica bem abaixo daquilo que o passado já nos trouxe destes filmes. É a saga a mostrar cansaço, tornando-se este oitavo capítulo numa paródia não intencional de si próprio, e que falha muitas vezes o alvo daquilo que pretende atingir.

Esta década tem-se mostrado prolifera para a série. Em primeiro lugar tivemos o excelente “Velocidade Furiosa 5”, um clássico de ação moderno, e o primeiro filme da série a mostrar uma qualidade notável. Depois de fraquejar com o 6º capítulo, a saga voltou em força com “Velocidade Furiosa 7”, uma despedida sentida a Paul Walker, que falecera pouco tempo antes.

Por isso, as expetativas eram relativamente elevadas para este oitavo tomo da longa série. Apercebendo-se disso, F. Gary Gray, o novo realizador de serviço, e a sua equipa de argumentistas, decidiram mudar a fórmula, com uma ideia que era relativamente interessante: Dominic Toretto traiu a sua família, tornando-se no vilão do filme.

O filme traz também algumas caras novas, como Charlize Theron, que está excelente como a principal vilão do filme, oferecenco a melhor antagonista que a série teve até agora. Kurt Russell e Helen Mirren também dão um show de interpretação (eles conseguiam fazer isto de olhos fechados, mas vamos ignorar isso), mas Scott Eastwood está muito apagado no muito pouco que tem para fazer. Destaque também para Statham, que está desta vez do lado dos “bons” (o que invalida muito o último filme) e que apresenta aqui uma das melhores interpretações da sua carreira.

O motivo da traição de Dom é surpreendentemente inteligente e funciona bastante bem. É um twist que dá profundidade à história e que leva a algumas cenas interessantes. No entanto, também levanta alguns problemas bastante graves que prejudicam e muito o filme. O principal é que daqui resulta que durante quase todo o filme as personagens estejam separadas, não havendo por isso lugar para as relações entre os membros do grupo que fizeram os últimos filmes tão agradáveis. O filme também é demasiado negro, deixando o humor quase de lado,  e quando o utiliza é demasiado forçado, artificial mesmo.

Nada aqui faz lá muito sentido. Isso é algo que pode ser dito sobre quase todos os filmes da saga, mas que aqui se torna ainda mais evidente, atingindo algumas proporções de estupidez que ultrapassam o razoável. Estas personagens já não são humanas, mas sim super-heróis. Por exemplo, a personagem de Dwayne “The Rock” Johnson faz aqui coisas que fariam o Capitão América corar. Também é óbvio que ninguém vai ver um filme destes à procura de discussões filosóficas ou de grandes ideias, mas seria possível pelo menos um argumento que não estivesse carregado de frases que nos fazem revirar os olhos?

Aquilo que se verifica é que a série está a passar por uma gigante crise de identidade. O filme deixou de utilizar o seu “divertimento sem consequências” para seu proveito, sucumbindo ao cliché e tornando-se num exercício de exagero sem cérebro. É um filme que se parodia a si próprio, mostrando todas as fraquezas da saga e revelando ainda mais algumas. Paul Walker faz aqui muita falta, e o filme não consegue lidar com a sua perda. Percebe-se finalmente que era realmente o ator o coração destes filmes, e sem ele levanta-se a questão de se a série se vai voltar a revigorar ou se chegou ao fim da estrada.

Se vieram pelas cenas de ação, então são capazes de sair agradados, pois estas são maiores do que nunca, sendo visualmente espetaculares e sentindo-se cada dólar do orçamento em cada imagem. No entanto, também não têm nada de novo, e são tão exageradas que se tornam cansativas. O momento mais original surge a meio do filme, quando todos os carros todos de Nova Iorque começam a ser controlados remotamente, incluindo veículos a “chover” do céu. É uma cena engraçada, mas que é tão estúpida e logicamente incoerente (vão percerber quando a virem) que se torna absurda.O filme não parece perceber que o argumento é que tem de justificar as cenas de ação, pois o que se verifica é o oposto: a história só existe para levar da cena de ação A para a cena de ação B.

O terceiro ato recompõe um pouco o filme, oferecendo cenas suficientes do grupo a trabalhar em equipa para salvar um pouco o resultado final. Paradoxalmente, também nos faz sentir o quão fraco o filme foi até aí, revelando o porquê de nada estar a funcionar: falta aquela química entre personagens que fez do 5 e do 7 os únicos bons filmes da saga. É uma cena visualmente magnífica (até algo inspirada no terceito ato de “A Origem”), passada na Rússia, que envolve submarinos nucleares e tanques de guerra, numa junção tão over-the-top que não deixa de ter a sua piada, apesar de ser demasiado convencional. Não é suficiente para uma redenção de todo o mal do filme, mas de certa forma ajuda.

Assim, “Velocidade Furiosa 8” é um enorme passo atrás para uma franquia que tinha vindo a ganhar qualidade nos últimos anos. É um filme que inadvertidamente se parodia a si próprio, sendo ainda menos lógico do que o que já vimos no passado da série, o que por si só já significa muito. O espetáculo não justifica os erros do filme, e o resultado final é um monte de clichés que muitas vezes não pegam. É sem dúvida veloz, mas falta-lhe a fúria.

Nota Final: 4,5/10

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