Crítica: T2 Trainspotting – 2017

“Choose life”. Há 20 anos, era com estas duas palavras que começava o discurso de Mark Renton (Ewan McGregor). O discurso tornou-se sagrado para toda uma geração de jovens, que o colavam nas paredes dos seus quartos e decoravam cada palavra. Foi um filme marcante para essa geração. A história de um grupo de drogados de Edimburgo, constituído por Renton, Spud, Sick Boy, Begbie e Tommy, era um retrato assustador do mundo junkie, um filme electrizante que lançou a carreira do seu realizador, Danny Boyle.

E porque é que aqui voltamos ao fim de 20 anos? Como a certo ponto diz Sick Boy, agora conhecido como Simon, pela nostalgia. Porque outra razão poderia ser? É por isso que voltamos a este mundo, para descobrirmos o que andam a fazer estas personagens que, da última vez que tínhamos visto, continuavam perdidas. Claro, todos menos Renton.

O filme volta a começar com Renton. Baseado levemente no livro sequela do primeiro livro, escrita novamente por Irvine Welsh, a história começa  20 anos depois de Renton ter tramado os seus amigos e de ter ido viver para Amesterdão, sendo que agora decide voltar a Edimburgo. Aí reencontra-se com Spud, que apesar de se ter casado e de ter tido um filho continua viciado em heroína. Sick Boy trocou a heroína pela cocaína e trabalha com uma prostituta, sendo que grava os clientes em plenas relações sexuais, para depois os poder chantagear. Begbie está preso. E a grande verdade é que nem todos ficam contentes com o regresso de Renton.

O maior destaque de “T2 Trainspotting” é voltarmos a ver o grupo todo reunido. O filme nunca consegue atingir os níveis de genialidade do primeiro, mas também nunca o procura, e não há problema nenhum nisso. O grande objetivo disto é mesmo lembrar-nos daquele grupo e mostrar-nos o que eles andam a fazer. E Boyle faz isso com mestria, entregando mais um filme visualmente brilhante, que é principalmente uma espécie de “reunião de amigos”.

E talvez o mais impressionante é ver como tudo mudou ao longo dos últimos 20 anos. Não só as personagens, mas o mundo em si. Em 1996, Renton no seu discurso começado por chose life incutia quem ouvia a escolher uma televisão grande como tudo, uma máquina de lavar, um carro, uma casa, boa saúde, um fato de três peças, ver concursos televisivos, entre muitas outras coisas. Em 2017, Renton, no momento mais emotivo e brilhante do filme, reatuliza o discurso para o novo mundo. Agora o que importa é escolher as redes sociais e preocupar-mo-nos com que alguém, nalguma parte do mundo se preocupe. É escolher uma viagem de duas horas para o trabalho, humilhação de mulheres, pornografia de vingança e reality shows. É o reflexo de um mundo em rede, descrito por Renton com um ar de alucinação e de quem está perdido nesta nova realidade.

Mas se o mundo mudou assim tanto, também é verdade estas personagens não mudaram assim tanto ao longo dos últimos 20 anos. Podem ter largado a heroína, mas continuam a ser vidas miseráveis e destroçadas, pertencentes a homens que estão tão perdidos agora como estavam há 20 anos. Só que agora estão sóbrios para compreenderem isso. E é aí que “T2 Trainspotting” se foca ainda mais, pintando um quadro melancólico sobre como este grupo continua na mesma condição, apenas de forma diferente.

Assim, com “T2 Trainspotting” Boyle sabia que nunca ia conseguir atingir o nível do clássico, e não há qualquer problema com isso. O resultado final é uma visita nostálgica ao passado, uma reunião que parece com amigos. Foram precisos 20 anos, mas a espera valeu a pena. Se desta vez foi mesmo a despedida, ou se vão ser precisos mais 20 anos para que voltemos a ver o grupo de Edimburgo, então que seja. Até lá, a mensagem permanece: “Chose life”.

Nota final: 7/10

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