Crítica: Silêncio (Silence) – 2016

“Sebastião Rodrigues: I pray but I am lost. Am I just praying to silence?”

A escala a que cada um vai apreciar “Silêncio” está diretamente relacionada com a sua fé. O épico religioso de Martin Scorsese é principalmente sobre a força da crença e até onde esta vai, e sobre como esta pode ser posta em dúvida quando tudo o que existe é o silêncio.

Sendo este um projeto de sonho de Scorsese, as minhas expetativas para o filme eram elevadas, visto que é dos meus realizadores favoritos (“Goodfellas” e “The departed” são obras-primas). E apesar de o resultado final ser ligeiramente diferente daquilo que estava à espera, é um filme monumental, com grandes ideias que não nos abandonam mesmo quando os créditos começam a passar.

A história acompanha dois jesuítas portugueses, Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver), que vão em missão para o Japão, em busca do seu mentor, o padre Ferreira (Liam Neeson), que segundo os rumores que correm renunciou à fé e adotou uma nova identidade, em pleno século XVI, durante as fortes perseguições aos cristãos no território.

“Silêncio” não é um filme fácil de ver. Para além das várias cenas de tortura que são violentas, todo o filme tem uma aura pesada, sendo psicologicamente desgastante. No entanto, esta componente é fulcral para a construção do filme: Scorsese sabe que é preciso violência (quer física quer psicológica) para salientar o sofrimento daqueles que não abdicam da fé.

Para além disso, todo o filme é caracterizado por uma beleza extrema. As imagens de sofrimento são gravadas com uma mestria excecional, que embeleza um quadro de crueldade de uma forma paradoxalmente impressionante. Os retratos hostis do Japão são de tirar a respiração, e a forma como são filmados, parecendo às vezes quase pintados, é louvável. Destque também para as interpretações, com Andrew Garfield a dar a sua segunda excelente interpretação no mesmo ano (a juntar a “O herói de Hacksaw Ridge”), e Adam Driver e Liam Neeson a estarem também bastante bem, apesar de não terem tanto para fazer.

Mas “Silêncio” é principalmente sobre a reflexão. Perante todo o sforimento a que assiste, Sebastião Rodrigues começa a questionar-se, a certo ponto, se Deus ouve os gritos daqueles que sofrem por Si. É esta a ideia fundamental da obra: será que todos estes que sofrem estão a rezar apenas ao silêncio? Ou será que Deus existe nesse silêncio? Todas estas questões são abordadas com uma grande maturidade, num filme que acaba por realçar que a fé é principalmente interna, e que quando tudo o resto é silêncio, é ela que sobra. Tudo isto é apresentado com uma beleza extrema e com uma pertinência inquietante. De facto, o filme acompanhou-me durante largas horas após a sua finalização, e todos aqueles que decidirem aceitá-lo vão perceber que lhes acontece o mesmo.

Se houver algum defeito a apontar, é que Scorsese por vezes não levanta o filme aos tons de épico que poderia facilmente alcançar. Sem qualquer banda-sonora, o filme passa-se praticamente todo num silêncio característico (aqui está ele outra vez). É claro que essa a intenção do realizador, e não vou dizer que correu mal, mas por vezes impede o filme de atingir um patamar dramático mais elevado.

Silêncio” é um grande filme sobre a importância da crença, e o porquê de se estar disposto a morrer por ela. Scorsese consegue aqui mostrar o porquê se rezar ao silêncio, e como isso fortalece quem o faz. Mais uma vez, é o realizador a alto nível.

Nota final: 8/10

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