Crítica: Hell or high water – custe o que custar! (“Hell or high water”) – 2016

Toby Howard: “I’ve been poor my whole life, like a disease passing from generation to generation. But not my boys, not anymore.”

“Hell or high water” é um filme diferente. É um filme que joga entre vários géneros, sem nunca se comprometer com nenhum. Tanto é um western como é um drama de família. Ora é um filme de assaltos, ora é uma comédia de humor negro. A cima de tudo, é uma análise de duas personagens extremamente complexas, e o ambiente em que estas vivem.

“Hell or high water” começa em grande. Duas personagens, que ainda não sabemos quem são, cometem uma série de assaltos numa cidade que parece que ficou esquecida no tempo. Ainda não sabemos quem são estes dois sujeitos, mas há algo neles que nos faz começar a torcer por eles. E esta sensação ainda aumenta quando descobrimos que são estes os dois protagonistas do filme. Por outro lado, o ambiente envolvente aponta para que este filme apenas se passa no tempo presente porque sim. O oeste do Texas, com a sua palete de cores desérticas, dá cor a um argumento que é intemporal. Se não fosse a utilização de telemóveis e de determinados automóveis, assim como certos momentos de crítica social, nunca saberíamos se estamos a presenciar um filme que se passa neste século ou no século passado. É uma obra intemporal.

De facto, a crítica social é um ponto que está sempre presente no filme. Várias vezes, o realizador David Mackenzie faz questão de mostrar marcos de uma crise que se faz sentir. O seu objetivo é mostrar os americanos que ficaram esquecidos no meio de todo o desastre financeiro, aqueles que viram os bancos tirarem-lhes tudo sem nada poderem fazer. Assim, o filme nunca cria heróis nem vilões. Serão os dois irmão, Toby e Tanner Howard, dois irmãos que roubam bancos de uma companhia bancária que lhes tenta tirar o rancho da falecida mãe devido a dívidas, os verdadeiros vilões? Ou serão apenas vítimas de tudo isto, pessoas que já não têm nada a perder, que foram tramadas toda a vida, e que por isso decidem arriscar?

É com esta moralidade ambígua que todo o filme vai jogando. Acrescenta-se a isto o ranger Marcus Hamilton, interpretado magistralmente por Jeff Bridgea. Este é um homem que está perto da reforma, e que mesmo assim arrisca-se para poder apanhar os dois irmãos. É um homem que acredita na justiça, e que por isso luta com tudo o que está ao seu alcance para a conseguir atingir. Assim,  não deveria ser este o homem porque torcemos? Não deveria ser este o verdadeiro “bom da fita”. Noutro filme talvez, mas na obra de Hamilton não. E isto só acentua a magnífica construção das personagens aqui apresentadas.

“Hell or high water” é realmente um filme de personagens. Os irmãos Toby e Tanner, que podia ser uma recriação moderna de Bonnie e Clyde, são na verdade duas das personagens mais complexas que nos foram apresentadas este ano na sétima arte. É quase impossível descrever o quão reais estes dois homens parecem. Hamilton consegue criar personagens tridimensionais, com as quais nos preocupamos realmente, o que é algo que não acontece muito frequentemente. Para tudo isto, ajudam os esforços de Chris Pine e Ben Foster, que têm aqui as melhores interpretações das suas carreiras.

Assim, “Hell or high water” é uma ode a uma América esquecida e aos que ficaram com ela. É uma ode ao western e aos filmes de assaltos. É também um filme complexo, que apresenta questões pertinentes. E por isso, é um filme que tem de ser descoberto.

Nota final: 9/10

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