Tesouros Desconhecidos: Anomalisa (2015)

Charlie Kaufman é um génio do cinema moderno que nunca recebeu o reconhecimento devido por parte das audiências cinematográficas. A mente por trás dos argumentos de “O eterno despertar da mente” e “Queres ser John Malkovich?” teve já duas experiências na realização, sendo que nenhuma delas obteve sucesso monetário. “Anomalisa” foi a segunda dessas experiências, um filme de animação stop-motion financiado através de crowd funding que, no entanto, não conseguiu encontrar uma audiência significativa na sua curta passagem pelas salas, fazendo apenas uns míseros 5,5 milhões de dólares a nível mundial. Há injustiças que doem!

“Anomalisa” é a história de Michael Stone, um homem de meia-idade que viaja até Cincinnati, Ohio, para apresentar o seu novo livro de auto-ajuda. No entanto, esta é talvez a única ideia simples num filme que nunca nos dá nada de bandeja. Kaufman tem algo a dizer com esta obra, e fá-lo com uma mestria excepcional. Desde logo destaca-se o facto de praticamente todas as personagens terem a mesma voz, incluindo o filho e a mulher de Michel. Quando nos apercebemos disto, é algo que nos começa atormentar. Queremos compreender o que é tudo isto significa, mas a verdade é que a resposta não é simples nem consensual, e esta é uma obra que pede reflexão após a sua visualização.

A história de “Anomalisa” passa-se praticamente toda dentro do hotel em que Michael fica. É este o espaço em que Michael lida com alguns dos fantasmas do seu passado, e tenta resolver alguns dos problemas da sua vida. É também neste espaço que decorre uma das histórias de amor mais belas que a 7ª arte nos ofereceu nos últimos anos. É aqui que Michael conhece Lisa, uma jovem por quem se apaixona ardentemente.

anomalisa

O romance entre estas duas figuras tão diferentes é exposto de uma forma incrivelmente realista, sendo que é difícil pensar num filme na última década que tenha desenvolvido um relacionamento tão credível. Quando finalmente chega a infame cena de sexo, esta ocorre com um realismo tal que é fascinante de ver. Kaufman não pretende vender mentiras, e a forma explícita como todo o momento é apresentado é excepcional, visto que dá uma sinceridade notável à relação das duas personagens em causa.

“Anomalisa” acaba por ser sobre tudo um pouco. Um retrato da vida como ela é, um relato de amor, uma análise da sociedade e das relações interpessoais. É o mais surpreendente de tudo é que cada um destes aspetos é explorado de uma forma profunda. Esta é também uma obra que, apesar de alguns momentos de humor negro, é marcada por uma melancolia constante, que chega quase a ser deprimente, mas que apenas adiciona beleza ao filme.

Assim, talvez seja irónico, mas “Anomalisa”, um filme de animação, é a obra cinematográfica mais humana do ano passado, e uma das mais humanas da última década. A nova criação de Kaufman é um estudo interessantíssimo sobre a sociedade em que vivemos, que no meio de tanto cérebro, nunca se esquece de ter o coração no sítio certo.

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